Quando o adoecimento muda aquilo que conseguimos fazer, também pode mudar a maneira como passamos a enxergar a nós mesmos.
“Não entendo. Eu sempre dei conta de tudo.”
Essa é uma frase que escuto com frequência no consultório. Talvez você também se reconheça nela. Durante anos trabalhou, enfrentou dificuldades, cuidou da família, resolveu problemas e atravessou períodos difíceis. Algumas vezes cansado, preocupado ou até sem saber exatamente como faria. Mas continuou.
Até que alguma coisa mudou.
O trabalho que antes fazia normalmente começou a exigir um esforço muito maior. A concentração diminuiu. Levantar-se pela manhã ficou mais difícil. Aquilo que antes produzia interesse ou prazer perdeu parte do sentido. Decisões simples começaram a exigir um esforço desproporcional e, mesmo continuando a cumprir suas obrigações, você passou a chegar ao final do dia completamente esgotado.
Até aqui estamos falando de sofrimento, sintomas e das limitações que podem acompanhar um quadro depressivo.
Mas existe outra parte dessa história que sempre me chama a atenção: você pode começar a sentir vergonha de ter adoecido.
Não apenas tristeza pelo que está vivendo ou preocupação com as consequências da doença. Vergonha.
E talvez valha a pena entender de onde ela vem.
Quando adoecer parece um fracasso
Quando desenvolvemos uma doença clínica, normalmente tentamos compreender o que aconteceu. Queremos saber o diagnóstico, o tratamento, quanto tempo pode levar a recuperação e quais limitações poderão existir durante algum tempo.
É claro que uma doença clínica também pode trazer medo, culpa, vergonha e muitos outros sentimentos. Não estou dizendo que adoecer fisicamente seja simples ou que não existam julgamentos. Mas existe uma diferença que encontro com frequência no consultório quando o adoecimento é mental.
Dificilmente alguém chega dizendo que está envergonhado porque desenvolveu uma pneumonia. Mas você pode estar deprimido e sentir vergonha por não estar conseguindo trabalhar como antes, por precisar se afastar, por depender da ajuda de outras pessoas ou simplesmente porque não consegue “reagir”.
E isso diz alguma coisa sobre a maneira como ainda compreendemos o sofrimento mental.
A depressão pode deixar de ser percebida apenas como um adoecimento e começar a ser interpretada como uma falha pessoal.
“Eu deveria conseguir.”
“Já passei por coisas muito piores.”
“Tem gente com problemas muito maiores.”
“Eu sempre fui forte.”
“Por que agora não consigo?”
Perceba o que aconteceu aqui. Você já não está apenas tentando entender o que está vivendo. Começou também a usar aquilo que está acontecendo como uma medida de quem você é.
E existe uma diferença importante entre reconhecer que “não estou conseguindo fazer o que fazia antes” e concluir que “me tornei incapaz”.
“Eu sempre dei conta de tudo”
Talvez essa frase seja tão dolorosa justamente porque não fala apenas daquilo que você fazia antes de adoecer. Ela fala também sobre a maneira como você aprendeu a enxergar a si mesmo.
Durante anos, talvez décadas, você pode ter construído uma identidade muito ligada à capacidade de trabalhar, resolver problemas, cuidar dos outros e continuar funcionando mesmo diante das dificuldades. Talvez fosse justamente você quem todos procuravam quando alguma coisa precisava ser resolvida.
Ser forte, nesse caso, não era apenas uma característica. Tornou-se parte da maneira como você se enxergava.
Por isso, quando a depressão começa a comprometer algumas dessas capacidades, não é apenas a rotina que muda. Pode surgir uma sensação muito mais profunda de estranhamento em relação a si mesmo.
“Eu não era assim.”
“Não estou me reconhecendo.”
“Parece que não sou mais a mesma pessoa.”
E então aquilo que poderia ser compreendido como manifestação de um adoecimento começa a ser vivido como uma espécie de derrota.
Pense no impacto disso. Se durante muito tempo você se reconheceu pela produtividade, uma dificuldade de concentração ou uma queda no rendimento podem significar muito mais do que trabalhar menos. Perder energia pode ser especialmente difícil para quem sempre foi muito ativo. E, depois de passar boa parte da vida cuidando dos outros, talvez não seja fácil aceitar que agora é você quem precisa ser cuidado.
É nesse ponto que o adoecimento pode começar a atingir não apenas aquilo que você consegue fazer, mas também a maneira como enxerga quem você é.
Uma limitação provocada pelo adoecimento pode acabar sendo interpretada como uma definição de quem você é.
O julgamento não precisa permanecer do lado de fora
Ainda existe preconceito em relação aos transtornos mentais. Algumas vezes ele aparece de maneira explícita. Em outras, está presente em comentários aparentemente banais:
“Você precisa reagir.”
“Não fica pensando nisso.”
“Procure ocupar a cabeça.”
“Todo mundo tem problemas.”
“Mas você sempre foi tão forte.”
Muitas dessas frases são ditas por quem realmente quer ajudar. O problema não está necessariamente na intenção de quem fala, mas no significado que aquilo pode adquirir para você naquele momento.
“Você sempre foi tão forte” pode ser uma tentativa de incentivo.
Mas também pode chegar aos seus ouvidos de outra maneira:
“O que aconteceu com você?”
Existe até um nome para esse processo: estigma internalizado.
Determinadas crenças, estereótipos e julgamentos que ainda existem em relação aos transtornos mentais podem acabar sendo incorporados por quem está vivendo aquele adoecimento.
Em outras palavras, o julgamento já não precisa continuar vindo apenas dos outros.
Você começa a repeti-lo para si mesmo.
Aquilo que antes poderia ser ouvido de alguém — “você deveria reagir” — transforma-se em “eu deveria estar conseguindo reagir”. Se existe a ideia de que precisar se afastar do trabalho é sinal de fraqueza, você pode começar a sentir vergonha por precisar do próprio afastamento. Se procurar tratamento psiquiátrico ainda é visto por algumas pessoas como sinal de que alguém não conseguiu resolver sozinho seus problemas, você pode chegar ao consultório sentindo que procurar ajuda representa uma derrota.
É assim que o julgamento que começou do lado de fora pode, aos poucos, ganhar a sua própria voz.
E então você já não precisa lidar apenas com a depressão. Precisa lidar também com aquilo que começou a pensar sobre si mesmo por estar deprimido.
Mas nem tudo vem dos outros
Seria um erro, entretanto, atribuir todo esse processo apenas ao preconceito social.
A própria depressão também pode interferir profundamente na maneira como você enxerga a si mesmo e interpreta aquilo que está acontecendo em sua vida. Sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva podem fazer parte do quadro depressivo, assim como a desesperança e uma visão progressivamente mais negativa sobre si, sobre suas possibilidades e sobre o futuro.
Por isso, uma dificuldade concreta pode adquirir um significado muito maior.
Talvez seu rendimento realmente tenha diminuído. Mas “estou produzindo menos” pode se transformar em “não sou mais competente”.
Talvez você realmente precise mais da ajuda da família. Mas “estou precisando de ajuda” pode se transformar em “estou sendo um peso”.
Talvez neste momento não esteja conseguindo cumprir todas as suas obrigações. Mas isso pode ser vivido como “estou decepcionando todo mundo”.
E talvez uma das experiências mais dolorosas seja justamente olhar para tudo aquilo que conseguia fazer antes e utilizar essa comparação como prova de que alguma coisa em seu valor pessoal foi perdida.
É importante fazer uma ressalva aqui. Não estou dizendo que as dificuldades não existem ou que tudo seja apenas uma interpretação provocada pela depressão. Você pode realmente estar trabalhando menos, produzindo menos, tendo dificuldades em casa ou precisando de uma ajuda que antes não precisava. Ignorar essas consequências também seria uma maneira de minimizar aquilo que está vivendo.
A questão é outra.
O que essas dificuldades passaram a dizer sobre você?
Existe uma diferença entre reconhecer uma limitação e transformar essa limitação em uma definição de quem você é.
Quando continuar funcionando se transforma em obrigação
Já escrevi outras vezes sobre como alguém pode continuar trabalhando, conversando, cuidando da casa e cumprindo compromissos mesmo durante um período de sofrimento emocional importante. Por fora, talvez pouca coisa tenha mudado. A diferença pode estar no esforço necessário para continuar sustentando tudo aquilo.
Para quem construiu boa parte da própria identidade em torno de “dar conta”, porém, continuar funcionando pode se transformar quase em uma obrigação. Você trabalha porque parar significaria admitir que não está bem. Evita pedir ajuda porque sempre foi você quem ajudou. Não conta o que está acontecendo porque teme ser visto de maneira diferente.
E pode continuar assim por bastante tempo, até perceber que aquilo que antes fazia naturalmente está exigindo cada vez mais esforço.
Reconhecer o adoecimento torna-se então particularmente difícil. Parece significar mais do que admitir a presença de sintomas. Pode parecer que aquela versão forte, produtiva e capaz de você mesmo deixou de existir.
Mas será que deixou?
Adoecer não apaga a história de quem você é
Quando você me diz “não entendo, eu sempre dei conta de tudo”, uma resposta fácil seria dizer que ninguém precisa dar conta de tudo.
E isso pode ser verdade.
Mas não acho que seja exatamente essa a questão.
Você provavelmente deu conta de muita coisa durante muitos anos. Enfrentou problemas, tomou decisões difíceis, assumiu responsabilidades, trabalhou, ajudou pessoas e encontrou maneiras de continuar. Nada disso precisa ser apagado ou diminuído para reconhecermos que, neste momento, alguma coisa mudou.
O ponto é outro.
Por que ter conseguido durante tantos anos significaria que você deveria continuar conseguindo exatamente da mesma maneira enquanto está doente?
Estar deprimido não apaga sua história de responsabilidade. Precisar de ajuda em determinado momento não apaga anos de autonomia. Apresentar uma redução de sua capacidade de trabalho neste momento não apaga uma trajetória de competência.
E procurar tratamento não significa que você fracassou na tentativa de resolver sozinho alguma coisa que deveria ter sido capaz de resolver.
Talvez seja justamente aí que duas coisas precisem ser separadas: aquilo que você consegue fazer neste momento e aquilo que você é.
Uma coisa não necessariamente define a outra.
Voltemos então à frase do início:
“Não entendo. Eu sempre dei conta de tudo.”
Talvez você realmente tenha dado conta de tudo durante muito tempo.
E talvez hoje não esteja conseguindo da mesma maneira.
Isso precisa ser levado a sério. Pode trazer limitações reais, consequências no trabalho, mudanças dentro de casa e sofrimento para você e para quem convive com você. Dependendo da intensidade, da duração dos sintomas e do impacto que estão produzindo em sua vida, pode ser necessária uma avaliação e um tratamento adequado.
Mas existe uma conclusão que não precisa acompanhar automaticamente tudo isso: a de que você fracassou.
Porque não conseguir fazer hoje aquilo que sempre conseguiu fazer não significa necessariamente que você se tornou mais fraco.
Pode ser justamente uma das maneiras pelas quais o adoecimento está aparecendo.
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Dr. Luciano Cherubini Junior
Médico Psiquiatra
Atendimento psiquiátrico em Registro (SP), no Vale do Ribeira, e consultas online.
Se você percebe mudanças persistentes no humor, na energia, no interesse pelas atividades, na concentração ou na capacidade de manter sua rotina, uma avaliação psiquiátrica pode ajudar a compreender o que está acontecendo e quais possibilidades de tratamento são adequadas ao seu caso.