Por que me sinto infeliz? Sou depressivo?

Infelicidade crônica e sensação persistente de vazio emocional
Infelicidade persistente e sensação de vazio podem não significar depressão, mas um padrão de insatisfação crônica.

Por que me sinto infeliz? Sou depressivo?

Por que não consigo sentir felicidade? Estou sempre descontente. Não me satisfaço com nada!

“Há os que nunca mudam, não por constância, mas por inércia, e vivem não como desejam, mas como sempre viveram. As características dos vícios são, pois, inumeráveis, mas o seu efeito apenas um: o descontentamento consigo próprio. Este descontentamento tem a sua origem num desequilíbrio da alma e nas aspirações tímidas ou menos felizes, quando não ousamos tanto quanto desejávamos ou não conseguimos aquilo que pretendíamos, e ficamos apenas à espera.” – Sêneca

Costuma-se dizer que a insatisfação é uma das forças motrizes do comportamento. Indica que algo não está funcionando bem, que estamos seguindo referências e padrões desmotivadores. Em todo caso, nos alerta que devemos mudar alguma coisa, a fim de alcançar um estado de maior realização.

Nessa perspectiva, a insatisfação não é negativa, muito pelo contrário, ela nos estimula a mudar e melhorar. Isso nos leva a ativar nossos recursos para redirecionar nossos passos.

No entanto, a insatisfação crônica é negativa porque nos leva a um estado de desprazer permanente, impede-nos de focar e viver plenamente o presente porque sentimos que não estamos integrados, não estamos satisfeitos com o nosso ser, não aceitamos plenamente a nossa realidade ou identidade.

É fundamental compreender que tristeza e infelicidade não significam a mesma coisa.

Não podemos comparar uma emoção com um estado de contentamento interior!

O fato de passar por uma situação que lhe deixa triste não implica que seja uma pessoa infeliz, descontente. Nem tampouco significa que tenha depressão, se for uma tristeza passageira.


Sentimento de vazio e comparação constante como causa de infelicidade
A comparação constante e expectativas irreais podem alimentar a sensação de infelicidade persistente.

Lembro-me de um paciente que acompanhei por algum tempo. Um homem septuagenário, com muitas experiências interessantes ao longo da vida.

Era um artista nato, bastante inteligente e articulado. Formado em teatro, houvera participado de alguns filmes e peças teatrais e até mesmo dirigiu atores em cena.

Em nossa primeira sessão falávamos sobre seu sentimento desconfortável que nunca passava. Era um sentimento de vazio, de tristeza, como se algo faltasse a ele. Conversamos bastante naquele dia e ele afirmava categoricamente: “doutor, eu não tenho depressão!”.

De fato, não tinha como discordar de sua observação perspicaz. Ele não tinha depressão! E afirmei a ele: “O que você tem é infelicidade!”

Vestiu como uma luva. Não teve como ele discordar.

“sou infeliz porque queria ser reconhecido no meio artístico. Eu queria ter sido um grande diretor de teatro”

Não importava tudo que conseguiu alcançar, tudo que conseguiu produzir, todas as superações. Ele vivia infeliz porque não se sentia reconhecido como um grande nome no meio artístico. Vivia infeliz porque sua mente ficou presa a um único desejo “não concedido”.

A insatisfação com a vida pode ser causada por muitas situações, mas muitas vezes está relacionada com a forma como nos definimos e como definimos sucesso ou felicidade.

No caso dele, não importava tudo que tinha realizado ao longo da vida. A felicidade ficou perdida, presa a uma necessidade pessoal de reconhecimento e fama profissional.

E, no fundo, nunca conseguiu me responder a um questionamento: “E se você tivesse chegado a este momento, diante de mim, com fama e reconhecimento, garante que não teria esse sentimento de infelicidade??”


Comparação e insegurança

A insatisfação crônica realmente assenta sua base na insegurança profunda. Essas pessoas passam grande parte da vida sentindo inveja, amargura e experimentando um sentimento de incapacidade.

Estamos constantemente nos comparando com os outros. A mídia social tornou tremendamente mais fácil comparar nossas vidas com as dos outros constantemente.

Alguém está sempre fazendo algo maior e melhor do que nós. É uma constante derrota para nossos egos e autoestima.

Quanto à linha do tempo da vida, cada um viaja no seu próprio ritmo e tudo bem.

Sentir-se descontente pode ser o impulso motivador para as mudanças. Mas exige ação.

Quando você se prende a este sentimento da insatisfação, sem se mover, fica fadado a um sentimento crônico de infelicidade.

De vez em quando, é conveniente olhar para trás para lembrar o quanto já percorremos.

Às vezes, não é tão importante o que você conquistou, mas a pessoa que você se tornou ao longo desse caminho.

Se você tem metas, sonhos, objetivos, mova-se!

Cada passo dado é um movimento que te aproxima da conquista.

Divirta-se com esse percurso e permita-se o contentamento em cada etapa.


Vídeo complementar

“Quando eu ainda estava contente queria estar descontente, e, com todos os meios que o tempo e a tradição me ofereciam, lancei-me no descontentamento — e então queria outra vez voltar atrás. Assim, fui sempre descontente, até com o meu contentamento.” – Kafka

Dr. Luciano Cherubini
Médico Psiquiatra

Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem

Formulário de contato