Este artigo discute aspectos importantes de Foge, Coelho (Run Rabbit Run, 2023). Na primeira parte, evito revelar os principais acontecimentos da história. Mais adiante, haverá um aviso antes de entrarmos em cenas específicas e no final do filme.
Algumas experiências terminam no tempo. Mas não necessariamente terminam dentro de nós.
Essa talvez seja uma das formas de compreender Foge, Coelho, filme de suspense psicológico que, inicialmente, parece contar uma história sobre uma criança estranha e a possibilidade de algo sobrenatural estar acontecendo.
Sarah é médica e vive com a filha Mia. No aniversário de sete anos da menina, um coelho branco aparece inesperadamente em sua casa. Mia se encanta pelo animal. Sarah, não.
A partir daí, o comportamento da menina começa a mudar. Surge uma estranha identificação com Alice, irmã de Sarah que morreu quando criança. Mia parece saber coisas que não deveria saber e, em alguns momentos, temos a impressão de que existe outra pessoa naquela menina.
Durante boa parte da história, portanto, o filme nos ensina a olhar para Mia. O que está acontecendo com ela? Seria possível que Alice tivesse retornado de alguma maneira?
Mas, aos poucos, outra pergunta começa a ocupar o lugar dessa.
E se estivermos olhando para a pessoa errada?
Talvez o verdadeiro mistério de Foge, Coelho não esteja em Mia.
Talvez esteja em Sarah.
Quando sua filha chega à idade da irmã que morreu
Há um detalhe fundamental nessa história: Mia completa sete anos, a mesma idade que Alice tinha quando morreu.
Não é Sarah quem retorna à idade que tinha quando aconteceu a tragédia. É sua filha quem alcança a idade da irmã morta.
Isso muda bastante a maneira como podemos olhar para o que começa a acontecer. Sarah não está apenas diante de uma lembrança. Todos os dias, ela olha para uma criança da mesma idade que Alice tinha.
Na clínica, determinadas datas, idades, lugares ou circunstâncias associadas a experiências dolorosas podem adquirir significado particular e despertar lembranças e respostas emocionais intensas. Isso não significa que exista uma espécie de relógio escondido na mente esperando determinada data para fazer um trauma reaparecer. A experiência humana é muito mais complexa.
Mas acontecimentos do presente podem tocar justamente naquilo que permaneceu doloroso, evitado ou pouco integrado à nossa história.
Sarah cresceu. Tornou-se médica, teve uma filha e construiu uma vida adulta. Décadas se passaram.
Isso, porém, não significa necessariamente que aquilo tenha sido elaborado.
Funcionar não é a mesma coisa que elaborar.
E talvez seja justamente essa a primeira grande mudança de perspectiva proposta pelo filme. Começamos tentando entender Mia. Progressivamente, precisamos começar a entender Sarah.
ATENÇÃO: A PARTIR DAQUI, HÁ SPOILERS.
Até aqui, ainda é possível conversar sobre Foge, Coelho sem desmontar seus principais mistérios. A partir daqui, não. Se você ainda não assistiu ao filme e pretende fazê-lo, talvez seja melhor parar neste ponto. A partir daqui, entraremos nas principais revelações da história, em cenas específicas e no final de Foge, Coelho.
Os desenhos mudam aquilo que estávamos vendo
Durante boa parte do filme, tudo parece apontar para Mia. Ela diz coisas estranhas, identifica-se com Alice, usa uma máscara de coelho e parece conhecer aspectos de uma história ocorrida muito antes de seu nascimento.
O próprio filme organiza nossa atenção dessa maneira. Procuramos uma explicação para a menina, seja ela psicológica ou sobrenatural.
Até que uma cena modifica retrospectivamente boa parte daquilo que vimos.
Durante a história aparecem desenhos estranhos. Mia diz que não os fez. Como espectadores, temos motivos para desconfiar dela, afinal seu comportamento vinha sendo apresentado como cada vez mais incomum.
Então ouvimos o som repetitivo de algo riscando uma superfície.
A câmera revela Sarah no chão, desenhando. Ela parece não estar plenamente integrada àquilo que está fazendo e reage quando o ex-marido chega e começa a chamá-la. Vemos também o estado da casa, com sinais evidentes de destruição.
Aquilo que atribuíamos à menina pode estar relacionado à própria Sarah.
A cena é importante não apenas porque descobrimos quem fazia os desenhos. Ela muda nossa posição como espectadores.
Percebemos que talvez tenhamos recebido parte da história através de uma experiência subjetiva na qual já não podemos confiar inteiramente. Sarah aparentemente realiza determinados atos e depois se depara com seus resultados sem reconhecê-los plenamente como seus.
É nesse ponto que fenômenos dissociativos se tornam uma chave possível para compreender a personagem.
Isso não significa diagnosticar Sarah. Foge, Coelho é uma obra de ficção e mistura propositalmente memória, culpa, alterações perceptivas, dissociação e elementos próprios do terror sobrenatural.
Mas existe algo particularmente interessante na maneira como o filme faz isso. Sarah recebe sua experiência em fragmentos, e nós também. Ela atribui inicialmente a outras pessoas acontecimentos que parecem estar relacionados a ela própria, e nós fazemos o mesmo.
Quando algumas revelações surgem, precisamos voltar mentalmente ao que vimos e reorganizar a história.
O coelho que Sarah tenta mandar embora
É difícil ignorar o coelho em um filme chamado Run Rabbit Run. Mas talvez seja um erro procurar uma tradução simples para ele.
Dizer que “o coelho representa o trauma” ou que “o coelho representa Alice” resolveria o símbolo depressa demais.
O filme permite algo mais interessante.
O animal aparece justamente quando Mia completa sete anos. A menina o acolhe, enquanto Sarah quer que ele desapareça. Ela tenta afastá-lo, o coelho retorna e, quando Sarah tenta expulsá-lo, ele a morde.
A ferida permanece.
Existe algo nessa sequência que se aproxima muito da relação de Sarah com o próprio passado. Algo retorna, ela não quer aquilo ali, tenta afastá-lo, não consegue simplesmente eliminá-lo e acaba ferida.
O coelho pode, portanto, ocupar o lugar daquilo que Sarah não consegue manter fora de sua vida: a lembrança de Alice, a culpa pelo que aconteceu e um passado que, quanto mais tenta afastar, mais invade o presente.
Isso não significa que o animal “seja” qualquer uma dessas coisas. Símbolos interessantes raramente funcionam como palavras em um dicionário.
O coelho possui ainda outra característica importante: ele é uma presa, um animal vulnerável que foge de quem o persegue.
Isso torna a pergunta sugerida pelo próprio título muito mais interessante:
Quem é o coelho que precisa correr?
Sarah passou grande parte da vida fugindo de seu passado. Mas, conforme sua experiência se desorganiza, Mia passa a correr perigo justamente por causa da mãe.
A posição de quem ameaça e de quem está ameaçado não permanece fixa. Alice foi uma criança vulnerável diante de Sarah. Sarah adulta passa a viver perseguida pela lembrança e pela culpa relacionadas ao que aconteceu. E Mia, finalmente, torna-se vulnerável diante das consequências da desorganização da própria mãe.
Talvez por isso Run Rabbit Run comporte uma leitura tão incômoda:
Sarah passou a vida fugindo do que fez com Alice. Mas, enquanto tentava escapar do próprio passado, acabou colocando Mia na posição de quem precisava fugir.
Alice, um coelho branco e uma toca que talvez não exista
Há uma associação difícil de não fazer. A irmã de Sarah se chama Alice, um coelho branco aparece e, a partir de sua chegada, entramos em uma história na qual as referências habituais da realidade parecem cada vez menos confiáveis.
É difícil não lembrar de Alice no País das Maravilhas.
Essa associação já foi feita por outros leitores e críticos do filme, embora isso seja muito diferente de afirmar que exista uma intenção declarada dos realizadores de adaptar ou homenagear Lewis Carroll. Por isso, prefiro tratá-la como uma possibilidade de leitura.
Na história de Carroll, Alice vê o Coelho Branco e decide segui-lo. Atravessa a toca e chega a um mundo desconhecido no qual as regras habituais deixam de funcionar.
Em Foge, Coelho, podemos imaginar um movimento quase inverso.
Sarah não quer seguir o coelho. Quer expulsá-lo. E sua descida não parece conduzi-la ao desconhecido, mas justamente àquilo que conhece bem demais e passou anos tentando manter distante.
Alice segue o coelho para descobrir o desconhecido. Sarah tenta expulsá-lo para não reencontrar aquilo que conhece.
A toca de Sarah talvez seja sua própria história.
Quando Mia deixa de ser apenas Mia
Mais perto do final, a deterioração de Sarah torna-se muito mais evidente.
Em uma das cenas mais perturbadoras, ela vê Mia com um grave ferimento na cabeça. A imagem remete diretamente a Alice e ao que aconteceu no passado.
Sarah reage ao que está vendo e, com uma tesoura nas mãos, acaba ferindo os braços da própria filha.
Esse momento é fundamental porque o passado já não está simplesmente sendo lembrado. Na experiência de Sarah, ele começa a se sobrepor ao presente.
Mia está diante dela, mas Alice também está.
Essa sobreposição permite compreender melhor algo que vinha sendo construído desde o início. Mia completar sete anos talvez não tenha simplesmente despertado lembranças em Sarah. A filha passa progressivamente a ocupar, em sua experiência psíquica, o lugar da irmã que morreu aos sete.
É aí que o sofrimento de Sarah deixa de permanecer apenas dentro dela e alcança concretamente Mia.
O passado de uma geração alcança a seguinte.
Para Sarah, Mia já não é apenas Mia. Mas nós, espectadores, ainda precisamos compreender o que essa confusão revela sobre a própria Sarah.
O que realmente aconteceu com Alice
A revelação sobre a morte de Alice modifica novamente tudo aquilo que vimos.
Sarah não foi apenas uma criança que perdeu a irmã em circunstâncias traumáticas. Ela provocou sua morte.
Isso torna insuficiente falar apenas em trauma, porque existe também culpa — e essa distinção é importante.
Alice não pode ser reduzida a “um trauma de Sarah”. Houve uma criança que morreu e outra criança envolvida diretamente em sua morte. Ao mesmo tempo, Sarah também era criança quando aquilo aconteceu.
É justamente essa posição difícil que torna a personagem tão interessante. Ela não cabe confortavelmente apenas no lugar de vítima, mas também não cabe simplesmente no lugar de agressora.
Sarah cresceu carregando uma experiência na qual culpa, memória, perda e aquilo que fez se tornaram inseparáveis.
Talvez seja por isso que a chegada de Mia aos sete anos tenha tanta força. Diante da filha, Sarah não encontra apenas uma lembrança abstrata de Alice. Encontra uma criança real da idade que sua irmã tinha.
E talvez seja muito diferente lembrar que alguém morreu aos sete anos e olhar todos os dias para aquilo que sete anos realmente significa.
No início, procuramos Alice dentro de Mia
Essa é, para mim, uma das inversões mais interessantes do filme.
Durante boa parte da história, procuramos Alice dentro de Mia.
No final, percebemos que talvez devêssemos ter procurado Alice dentro de Sarah.
Os desenhos, os sonhos, os sons, os rostos que aparecem por instantes, os ferimentos e a crescente confusão entre Mia e Alice deixam de exigir uma explicação exclusivamente sobrenatural. Podem também ser compreendidos como manifestações de um mundo interno que está progressivamente ocupando o presente.
Isso não resolve completamente o filme.
E ainda bem.
Foge, Coelho preserva espaço para a dúvida. Talvez exista algo sobrenatural acontecendo. Talvez algumas imagens sejam representações da experiência subjetiva de Sarah. Talvez o filme não queira que escolhamos confortavelmente entre as duas possibilidades.
Independentemente da explicação que adotemos, porém, uma coisa já aconteceu: Sarah deixou de conseguir manter Alice no passado.
Quando o conflito de uma mãe passa a fazer parte da vida da filha
Existe ainda outra relação entre mães e filhas que ajuda a compreender o filme: antes de acompanharmos Sarah como mãe de Mia, encontramos Sarah como filha.
Quando Sarah leva Mia para visitar Joan, sua mãe, percebemos que Alice continua ocupando um lugar naquela família décadas depois de sua morte. Joan vive cercada por lembranças da filha e reage a Mia a partir dessa história. Para Sarah, retornar àquele ambiente significa também reencontrar uma parte da própria infância que havia procurado manter distante.
A relação entre Sarah e Joan mostra que a morte de Alice não permaneceu apenas como uma lembrança individual de Sarah. Ela reorganizou aquela família. Mãe e filha carregaram a mesma perda de maneiras diferentes, e entre elas também permaneceu aquilo que não havia sido dito.
Isso torna ainda mais interessante o fato de Sarah agora ocupar outra posição: ela própria é mãe.
E é justamente nessa relação com Mia que aquilo que permaneceu mal integrado à sua história começa a produzir consequências concretas.
A filha passa a ser interpretada através da história da mãe. Seus comportamentos ganham significados relacionados a Alice e sua imagem começa a se confundir com a da menina morta. Até que Sarah a machuca respondendo não apenas à criança que está diante dela, mas também àquilo que sua própria experiência psíquica colocou naquele lugar.
Não é necessário recorrer a uma ideia simplificada de “trauma transgeracional” para compreender o que o filme está mostrando.
Mia não viveu a infância de Sarah e não estava lá quando Alice morreu. Mas passa a sofrer as consequências da maneira como Sarah se relaciona com aquilo que aconteceu.
Esse talvez seja um dos aspectos mais realistas escondidos dentro de uma história deliberadamente extrema: nossos conflitos não precisam ser vividos diretamente por nossos filhos para interferir na relação que construímos com eles.
Sarah atrás do vidro
E então chegamos à imagem final.
Sarah vê Mia afastar-se de mãos dadas com Alice. Ela está dentro da casa, grita e bate contra o vidro, tentando alcançá-las.
Não consegue.
Quem prefere uma leitura sobrenatural encontra ali uma possibilidade evidente: Alice finalmente veio buscar Mia.
Mas existe outra possibilidade.
Talvez aquela seja a representação final do que aconteceu com Sarah.
Mia e Alice estão do outro lado. Sarah ficou presa, não necessariamente naquela casa, mas dentro de uma experiência psíquica na qual passado e presente já não conseguem permanecer adequadamente separados.
A imagem é particularmente poderosa porque Sarah consegue ver o que está diante dela. Existe, porém, uma barreira entre ela e o mundo.
Ela vê e tenta alcançar.
Mas não consegue atravessar.
Por que esse final me pareceu tão familiar
Enquanto pensava sobre Foge, Coelho, percebi que parte do desconforto provocado por Sarah me era familiar por outra razão.
Eu havia explorado uma questão diferente, mas próxima, ao escrever meu romance O Ano que Não Passou.
Beatriz e Sarah não são personagens equivalentes e suas histórias não devem ser confundidas. Mas, em meu romance, um pensamento intrusivo envolvendo o irmão ainda bebê reaparece, muitos anos depois, dentro de uma construção psíquica muito mais complexa, na qual memória, culpa e realidade já não permanecem claramente separadas.
A aproximação entre as duas personagens, para mim, está menos naquilo que lhes aconteceu e mais na pergunta que suas histórias provocam:
O que acontece quando culpa, memória e sofrimento constroem uma realidade psíquica capaz de competir com aquilo que está diante de nós?
Talvez por isso uma frase que escrevi antes mesmo de pensar nesta análise tenha voltado à minha cabeça.
Na abertura de O Ano que Não Passou, há uma dedicatória:
Para aquilo que não terminou
— apenas continuou de outra forma.
São histórias diferentes, mas ambas me fazem pensar em algo semelhante: o calendário pode continuar avançando sem que determinadas experiências tenham necessariamente terminado dentro de nós.
O passado não precisa desaparecer para que a vida continue
É importante não retirar de um filme de terror conclusões clínicas simplistas.
Nem toda pessoa que passou por uma experiência traumática desenvolverá fenômenos dissociativos. Muito menos perderá contato com a realidade ou apresentará comportamentos semelhantes aos de Sarah.
Também não é correto imaginar que experiências dolorosas permaneçam escondidas em algum lugar da mente, esperando inevitavelmente o momento de “explodir”. A realidade clínica é muito mais complexa.
Mas Foge, Coelho utiliza o exagero, os símbolos e a ambiguidade próprios do gênero para representar algo psicologicamente reconhecível.
Podemos continuar vivendo, trabalhar, construir relações, ter filhos e seguir adiante sem que determinadas experiências tenham necessariamente encontrado um lugar possível dentro da nossa própria história.
Talvez seja essa a diferença entre simplesmente continuar e elaborar.
O tempo passou para Sarah.
Alice morreu. Sarah cresceu. Mia nasceu.
A vida continuou.
Mas, durante quase todo o filme, pensamos que Alice havia voltado.
Talvez, para Sarah, ela nunca tivesse realmente ido embora.
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Sobre o autor
Dr. Luciano Cherubini é médico psiquiatra em Registro (SP), no Vale do Ribeira. Neste site, escreve sobre psiquiatria, saúde mental e as formas como o cinema e a literatura podem nos ajudar a pensar sobre a experiência humana.
Além das análises da série Cinema & Psiquiatria, você encontra no site artigos sobre ansiedade, depressão, pensamentos, emoções, comportamento e outros temas da prática psiquiátrica.