Fratura (Fractured): quando a mente cria uma realidade para sobreviver ao trauma
“A pintura inacabada de um evento traumático é o pincel que delineia o conflito entre a vontade de negar eventos horríveis e a vontade de proclamá-los em voz alta.”
Dr. Luciano C. Junior – Médico Psiquiatra
Fractured (2019): um thriller psicológico que explora trauma, dissociação e psicose sob a ótica psiquiátrica.
Uma dica de filme?
Veja na Netflix o filme “Fractured” (2019), dirigido por Brad Anderson, estrelado por Sam Worthington, Lily Rabe e Stephen Tobolowsky.
O enredo acompanha Ray Monroe viajando com sua esposa Joanne e sua filha Peri após o Dia de Ação de Graças. Uma tragédia em um posto de gasolina leva a família a um hospital — e, a partir dali, mãe e filha desaparecem misteriosamente. O hospital afirma não ter registro delas. O desespero começa.
Tente se imaginar nessa situação. O que você faria?
Atenção: spoilers a partir daqui
Ray é um alcoólatra em recuperação, marcado pela morte da primeira esposa em um acidente causado por dirigir alcoolizado. Ele carrega culpa, tensão e fragilidade emocional.
No hospital, após um exame solicitado para a filha, Joanne e Peri desaparecem. Ray passa a acreditar que está em um hospital envolvido em tráfico de órgãos. Ele interpreta cada detalhe como prova de uma conspiração.
Mas o filme é filtrado por uma perspectiva não confiável.
O que realmente aconteceu?
Peri caiu no canteiro de obras e morreu no impacto. Ray, ao tentar salvá-la, sofreu traumatismo craniano. Joanne, devastada, foi empurrada por Ray durante o desespero e também morreu.
Os corpos estavam no porta-malas desde o início.
A trama de tráfico de órgãos foi uma construção delirante — uma realidade alternativa criada para evitar o contato com a dor insuportável.
No minuto 1h31, a frase resume tudo:
“A mente, Ray, às vezes pode criar uma realidade alternativa, falsa, para se proteger de um trauma.”
O que aconteceu com a mente de Ray?
Do ponto de vista psiquiátrico, observamos uma combinação complexa:
- Transtorno por uso de álcool
- Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT)
- Amnésia dissociativa
- Surto psicótico agudo
1. TEPT
Ray já carregava trauma anterior da morte da primeira esposa. A nova tragédia reativa esse núcleo traumático.
2. Dissociação
Diante de um estresse avassalador, a mente pode “fraturar”. A dissociação é um mecanismo de defesa no qual memória, identidade e percepção se fragmentam.
A mente corta partes da realidade para proteger o indivíduo da dor intolerável.
3. Psicose
A partir da dissociação inicial, Ray evolui para um quadro psicótico, com delírios persecutórios e alucinações. A realidade paralela torna-se dominante.
A tríade TEPT + dissociação + psicose é clinicamente possível, especialmente em indivíduos com vulnerabilidade prévia e histórico de uso de álcool.
Por que esse filme é tão impactante?
Porque ele nos confronta com algo desconfortável: a mente pode fabricar uma realidade inteira para evitar o contato com um horror que não suportamos imaginar.
Ray não poderia perder a família novamente. Então sua mente cria uma história onde ele ainda está lutando para salvá-los.
É um mecanismo de sobrevivência.
Mas que cobra um preço alto.
Reflexão clínica
Traumas não elaborados não desaparecem. Eles permanecem ativos, latentes, esperando um gatilho.
A dissociação pode proteger no curto prazo. A psicose pode organizar o caos interno. Mas nenhuma dessas soluções substitui o enfrentamento terapêutico da dor.
A mente pode fraturar. E quando isso acontece, a realidade se torna maleável.
Ótimo filme. Vale assistir novamente com esse olhar.
Quer aprofundar?
Se você quiser saber mais sobre TEPT, dissociação ou surtos psicóticos, entre em contato. Posso te ajudar.
Dr. Luciano C. Junior
Médico Psiquiatra
CRM 96061 | RQE 118809
Registro – SP | Vale do Ribeira