Como o ambiente molda a forma de pensar
Talvez você também tenha percebido.
De repente, parece que todo mundo está falando da mesma coisa.
Durante alguns dias o assunto invade as redes sociais, gera memes, vídeos, críticas, piadas e milhares de comentários. Depois desaparece. Até que uma nova onda ocupe seu lugar.
Nos últimos anos vimos isso acontecer repetidas vezes.
Bebês reborn.
Therians.
Desafios perigosos.
Adultos usando chupeta.
Mais recentemente, "farmar aura".
Fenômenos contemporâneos surgem como ondas quebrando contra um penhasco.
Eles chegam com força, chamam nossa atenção e, quase sempre, provocam a mesma reação.
"Onde vamos parar?"
"O que está acontecendo com esta geração?"
"Como chegamos a esse ponto?"
São perguntas compreensíveis.
Eu mesmo já me fiz todas elas.
Mas, com o tempo, comecei a desconfiar de que talvez estivéssemos olhando apenas para a superfície.
Talvez estivéssemos discutindo o fruto.
E ignorando o solo.
Por qual caminho chegamos até aqui?
Essa pergunta mudou completamente a maneira como passei a olhar para esses fenômenos.
Na medicina aprendemos cedo que um sintoma raramente explica uma doença.
A febre chama nossa atenção.
Mas raramente é onde a investigação termina.
Ao longo de quase três décadas atendendo pacientes, aprendi que quase nenhum sofrimento aparece de repente. Quando finalmente percebemos um sintoma, muitas vezes o processo já vinha acontecendo silenciosamente havia bastante tempo.
Às vezes me pergunto se algo semelhante não acontece também com a cultura.
Talvez "farmar aura" não seja o fenômeno que realmente precisamos compreender.
Talvez seja apenas um sintoma.
Um sinal visível de um processo que começou muito antes de essa expressão existir.
Nós costumamos discutir os frutos
Foi então que outra imagem começou a fazer sentido para mim.
Nenhum agricultor começa a investigação pelo fruto.
Ele sabe que o fruto apenas revela aquilo que aconteceu durante meses debaixo da terra.
Muito antes de aparecer no galho, alguém preparou o solo.
Escolheu a semente.
Cuidou da água.
Esperou o tempo necessário.
O fruto apenas tornou visível um processo que começou muito antes.
Talvez nós façamos exatamente o contrário quando observamos fenômenos culturais.
Discutimos o fruto.
Quase nunca perguntamos pela árvore.
E quase nunca olhamos para o solo.
Foi nesse momento que surgiu uma pergunta que não consegui mais abandonar.
Quem cultivou esse ambiente?
Nenhum pensamento nasce no vazio
Nenhuma criança nasce desejando ser admirada por uma tendência da internet.
Assim como ninguém acorda, de um dia para o outro, considerando determinados comportamentos mais interessantes, mais desejáveis ou mais dignos de reconhecimento.
Nós aprendemos.
Observamos.
Imitamos.
Pertencemos.
Influenciamos.
E somos influenciados.
Foi então que percebi uma coisa aparentemente simples.
Nenhum pensamento nasce no vazio.
E talvez nenhuma cultura também.
Assim como nenhum organismo vive fora de um ecossistema, nenhum ser humano constrói sua maneira de pensar completamente isolado do ambiente em que vive.
Durante muito tempo, esse ambiente era formado principalmente pela família, pela escola, pela comunidade, pelos livros e pelas experiências do cotidiano.
Hoje ele se tornou muito mais complexo.
Vivemos cercados por algoritmos que selecionam parte daquilo que vemos, por métricas públicas de aprovação, por conteúdos personalizados, por recompensas instantâneas e por uma disputa permanente pela nossa atenção.
Não se trata apenas de uma mudança tecnológica.
Talvez estejamos diante de uma mudança muito mais profunda.
Uma transformação do ambiente onde a consciência humana continua sendo cultivada.
Existe uma ecologia da formação humana?
Enquanto refletia sobre tudo isso, uma pergunta começou a se repetir na minha cabeça.
Será que existe uma ecologia da formação humana?
Talvez pareça uma pergunta estranha.
Mas quanto mais penso nela, menos absurda ela me parece.
Assim como existe um ecossistema ambiental, talvez também exista um ambiente que participe silenciosamente da formação de quem nos tornamos.
Como percebemos o mundo.
Os valores que desenvolvemos.
As perguntas que aprendemos a fazer.
As pessoas que escolhemos admirar.
Os comportamentos que imitamos.
Os medos que cultivamos.
As esperanças que preservamos.
Nada disso nasce completamente isolado.
Se isso for verdade, então talvez exista, dentro dessa ecologia da formação humana, uma dimensão específica: a ecologia cognitiva.
Ou seja, não apenas o ambiente onde crescemos, mas o ambiente onde nossos pensamentos são continuamente cultivados.
Imagine duas sementes exatamente iguais.
Uma cresce em um solo fértil.
A outra cai sobre uma pedra.
As sementes são as mesmas.
O ambiente não.
Talvez ideias também cresçam assim.
Valores também.
E, sobretudo, comportamentos.
Isso não significa que sejamos controlados pelos algoritmos. Seria uma simplificação.
Mas talvez eles tenham passado a ocupar um lugar central dentro desse ambiente.
Não porque decidam aquilo que pensamos.
Talvez o maior poder deles seja outro.
Quais assuntos passam a ocupar nossos pensamentos.
Quais assuntos conseguem disputar nossa atenção.
Quais comportamentos recebem visibilidade suficiente para se tornarem referências culturais.
E quais simplesmente desaparecem antes mesmo de terem tempo para crescer.
As paisagens mentais também mudam
Cada geração herda uma determinada paisagem mental.
O curioso é que quase nunca percebemos isso.
Ela simplesmente nos parece... o mundo.
Mas não é.
É apenas a forma como aprendemos a olhar para ele.
Mudam as ferramentas.
Mudam as formas de comunicação.
Mudam as maneiras de pertencer.
Mudam os símbolos de prestígio.
Mudam os incentivos que orientam nossas escolhas.
Durante muito tempo, competência e reconhecimento costumavam caminhar juntos.
Hoje, em muitos contextos, a própria visibilidade tornou-se uma recompensa.
Quanto maior a exposição, maior a possibilidade de aprovação.
Quanto maior a aprovação, maior o incentivo para repetir determinados comportamentos.
Não estamos falando apenas das redes sociais.
Estamos falando de uma paisagem mental diferente daquela em que cresceram nossos pais.
Talvez nossos avós sequer a reconhecessem.
E nós?
É confortável imaginar que estamos apenas observando tudo isso de fora.
Mas também fazemos parte desse ambiente.
Escolhemos aquilo que compartilhamos.
Decidimos onde colocamos nossa atenção.
Reforçamos comportamentos quando lhes damos visibilidade.
Talvez sejamos, ao mesmo tempo, cultivadores e cultivados.
Essa possibilidade me parece desconfortável.
Mas talvez seja justamente por isso que mereça ser pensada.
A liberdade também precisa ser cultivada
Buscamos reconhecimento.
Queremos pertencer.
Gostamos de ser aceitos.
Essas necessidades não nasceram com a internet.
Elas fazem parte da condição humana.
O que mudou foi o ambiente onde essas necessidades passaram a ser estimuladas.
Ao longo da história aprendemos a defender diferentes formas de liberdade.
Liberdade política.
Liberdade religiosa.
Liberdade de expressão.
Talvez estejamos diante da necessidade de defender outra.
A liberdade de formar o próprio pensamento.
Isso não significa viver sem influência.
Nenhum ser humano vive.
Significa desenvolver discernimento suficiente para reconhecer as influências que nos cercam e decidir, conscientemente, quais delas merecem participar da construção de quem somos.
Não tenho respostas prontas para essas perguntas.
Na verdade, quanto mais penso nelas, mais perguntas aparecem.
Talvez isso seja um bom sinal.
Talvez o problema nunca tenha sido o fenômeno
É provável que essa expressão desapareça em alguns meses.
Outra expressão ocupará seu lugar.
Outro fenômeno chamará nossa atenção.
Os frutos continuarão mudando.
Talvez seja justamente por isso que eu tenha deixado de perguntar apenas:
"Onde vamos parar?"
Hoje me interessa muito mais outra pergunta.
Por qual caminho chegamos até aqui?
Porque talvez seja nesse caminho — e não no fenômeno da semana — que estejam escondidas as transformações mais profundas do nosso tempo.
Toda geração costuma se preocupar com o mundo que deixará para seus filhos.
Ultimamente tenho pensado que talvez exista outra pergunta igualmente importante.
Não apenas que mundo deixaremos para eles.
Mas em que paisagem mental eles aprenderão a pensar.
E talvez, antes de julgarmos ou nos assustarmos com o próximo fruto que surgir, devêssemos desenvolver o hábito de olhar para o solo que o tornou possível.
Porque é nele que quase todas as transformações começam.
Atendimento em Psiquiatria em Registro – SP
Sou o Dr. Luciano Cherubini, médico psiquiatra (CRM-SP 96.061 | RQE 118809), com mais de 25 anos de experiência no cuidado da saúde mental de adolescentes, adultos e idosos.
Em meu consultório, acredito que compreender o sofrimento humano vai além do diagnóstico. Cada pessoa é resultado de uma história, de experiências e do ambiente em que vive. Por isso, procuro oferecer um atendimento individualizado, baseado em escuta, conhecimento científico e respeito à singularidade de cada paciente.
Se você deseja conhecer mais conteúdos sobre comportamento humano, saúde mental e psiquiatria, continue acompanhando os artigos publicados em www.medicopsiquiatra.info.