Há algum tempo, mais de uma pessoa me pediu que escrevesse sobre determinados padrões que parecem se repetir nos relacionamentos. E houve também quem me sugerisse falar sobre o filme É Assim Que Acaba.
As duas coisas acabaram se encontrando.
Porque, embora o filme conte uma história particular, existe ali uma questão que vai muito além dos seus personagens: por que, às vezes, encontramos nos nossos relacionamentos adultos justamente algumas das dinâmicas que mais criticávamos na relação dos nossos pais?
Talvez você mesmo já tenha feito uma promessa parecida:
“Eu cresci vendo aquilo e prometi a mim mesmo que jamais viveria daquela maneira.”
Pode ter sido ainda muito jovem, observando as brigas dos seus pais, o silêncio que durava dias, as humilhações, o ciúme, a falta de carinho ou a maneira como um deles sempre cedia para evitar conflitos. Talvez você tenha crescido vendo alguém medir cada palavra para não provocar uma reação do outro e pensado, com toda a convicção possível: “Quando eu tiver a minha vida, vai ser diferente.”
E provavelmente acreditava nisso.
Anos depois, porém, pode acontecer algo desconcertante. A história não é exatamente a mesma, a pessoa ao seu lado é diferente e as circunstâncias também são outras. Ainda assim, alguma coisa naquela relação parece estranhamente conhecida.
Talvez você perceba que novamente está tentando conquistar a atenção de alguém emocionalmente distante. Talvez tenha assumido o papel de quem sempre cede, de quem precisa salvar o outro ou de quem vive com medo de ser abandonado. Em outros casos, começa a tolerar comportamentos que, olhando de fora, sempre jurou que jamais toleraria.
E então surge uma pergunta difícil: se eu sabia tão bem o que não queria para a minha vida, por que fui parar em algo que, de alguma maneira, se parece com aquilo?
A resposta não está simplesmente em “escolher mal”. E muito menos significa que alguém deseje sofrer. Para compreender melhor essa questão, precisamos voltar a uma parte da nossa história que começou muito antes dos nossos primeiros relacionamentos amorosos.
Aprendemos o que é uma relação antes mesmo de sabermos explicar o que é amor
A família costuma ser nosso primeiro laboratório de relações humanas. Muito antes de termos maturidade para analisar o comportamento dos adultos, já estamos observando como eles se aproximam, se afastam, discutem, demonstram carinho, pedem desculpas, controlam, protegem, silenciam e se reconciliam.
Uma criança, porém, não observa tudo isso da mesma maneira que um adulto observaria.
Ela vive dentro disso.
É nesse ambiente que começa a construir algumas referências sobre como as relações funcionam. Aprende, por exemplo, o que costuma acontecer quando alguém fica bravo, se é possível discordar sem perder o amor do outro, se o carinho é oferecido espontaneamente ou precisa ser conquistado. Também pode aprender que amar significa cuidar, salvar, ceder ou abrir mão de si para que alguém permaneça.
Naturalmente, nada disso acontece como uma aula formal. Uma criança não se senta para formular teorias sobre vínculos afetivos. Mas, enquanto vive aquelas experiências, vai construindo expectativas sobre proximidade, conflito, abandono, segurança, afeto e pertencimento.
Isso não significa que nossa história familiar determine quem escolheremos no futuro. Seria simplista pensar assim. Mas ela pode participar da construção daquilo que esperamos, reconhecemos e até toleramos dentro de uma relação.
O familiar não é necessariamente o saudável
Essa talvez seja uma das distinções mais importantes quando falamos sobre repetição de padrões: aquilo que nos é familiar não é necessariamente aquilo que nos faz bem.
Imagine alguém que cresceu com um pai emocionalmente distante. Durante anos, essa pessoa pode ter desejado justamente o contrário: alguém presente, disponível e afetuoso. Ainda assim, quando chega à vida adulta, percebe que se envolve repetidamente com pessoas difíceis de alcançar emocionalmente.
Isso não significa necessariamente que esteja procurando, de forma consciente, alguém parecido com o pai. A questão pode ser muito mais sutil. Aquela dinâmica, de alguma maneira, lhe é conhecida. Ela conhece a espera, a tentativa de conquistar a atenção do outro e a sensação de receber pouco e, justamente por isso, atribuir um enorme valor aos raros momentos de proximidade.
Foi dentro dessa dinâmica que aprendeu, muito cedo, algumas maneiras possíveis de se vincular emocionalmente a alguém. E aquilo que conhecemos profundamente pode produzir uma estranha sensação de reconhecimento.
Não estou falando necessariamente de conforto, felicidade ou segurança. Às vezes é apenas aquela sensação difícil de explicar:
“Eu conheço esse lugar.”
E existe uma enorme diferença entre algo nos parecer emocionalmente conhecido e escolher conscientemente aquilo que nos faz bem.
Às vezes, até uma relação saudável pode parecer estranha
Existe uma consequência menos óbvia dessa história. Quando determinados padrões nos acompanharam durante muito tempo, não é apenas o disfuncional que pode parecer familiar. O saudável também pode causar estranhamento.
Para alguém acostumado à imprevisibilidade, por exemplo, a estabilidade pode inicialmente parecer monotonia. Quem aprendeu que precisava conquistar o afeto pode não experimentar a mesma intensidade ao encontrar alguém emocionalmente disponível. Da mesma forma, uma pessoa que cresceu associando ciúme a amor talvez estranhe uma relação baseada em confiança.
Pense também em quem passou boa parte da vida ocupando o lugar de cuidador. Encontrar alguém que não precisa ser salvo pode produzir uma sensação curiosa: “Se eu não preciso cuidar o tempo inteiro, então qual é o meu lugar aqui?”
Isso não significa que pessoas necessariamente rejeitem relações saudáveis ou que estejam condenadas a procurar relações difíceis. Significa apenas que nossas escolhas afetivas são mais complexas do que uma lista racional das características que gostaríamos de encontrar em alguém.
Quando entramos em uma relação, não levamos conosco apenas desejos e expectativas.
Levamos também uma história.
“Mas eu sei que isso me faz mal”
Talvez essa seja uma das partes mais difíceis de compreender. Uma pessoa pode reconhecer intelectualmente determinado padrão e, ainda assim, continuar funcionando dentro dele.
Ela pode saber que costuma se envolver com pessoas parecidas. Pode perceber que deveria estabelecer limites ou reconhecer claramente que determinada relação está lhe fazendo mal.
E realmente saber de tudo isso.
O problema é que conhecimento intelectual e mudança emocional não são exatamente a mesma coisa. Reconhecer um padrão é diferente de ter deixado de funcionar dentro dele.
É por isso que algumas pessoas conseguem analisar com enorme lucidez aquilo que estão vivendo e, mesmo assim, encontram dificuldade para agir de maneira diferente. Não se trata necessariamente de falta de inteligência, fraqueza ou ausência de amor-próprio.
Relacionamentos envolvem vínculo, medo, expectativa, memória, desejo, culpa, esperança e necessidade de pertencimento. Tudo isso pode continuar existindo ao mesmo tempo em que uma parte de nós já compreendeu racionalmente que alguma coisa não vai bem.
E é justamente nesse ponto que o filme É Assim Que Acaba se torna uma história interessante para pensar sobre o assunto.
É Assim Que Acaba: quando uma história começa a se repetir
Por que, às vezes, repetimos nos nossos relacionamentos aquilo que juramos nunca repetir? O filme É Assim Que Acaba é o ponto de partida para esta reflexão.
Quando aquilo que juramos não repetir reaparece
Lily cresceu presenciando violência na relação dos próprios pais. Ela conhecia aquela realidade e sofreu com ela. Por isso, olhando sua história de fora, poderia parecer evidente que jamais aceitaria viver algo semelhante.
Mas a vida adulta a coloca diante de uma realidade muito mais complexa do que aquela que enxergava quando observava a relação dos pais.
E aqui o filme nos ajuda a perceber uma diferença fundamental.
É muito fácil perguntar:
“Por que ela não vai embora?”
Outra coisa completamente diferente é estar emocionalmente envolvido com a pessoa de quem talvez seja necessário ir embora.
De fora, enxergamos comportamentos e podemos avaliá-los com uma distância que quem está vivendo aquela relação não possui. De dentro, existem lembranças, promessas, momentos bons, projetos construídos em conjunto, esperança, culpa, medo e amor.
Talvez seja justamente por isso que algumas relações sejam tão difíceis de compreender para quem olha de fora. A pessoa que machuca não necessariamente é cruel o tempo inteiro. Essa pessoa pode ter qualidades reais. Pode existir afeto verdadeiro e podem ter existido momentos genuinamente bons.
Se uma relação fosse marcada apenas por sofrimento, sem afeto, esperança ou momentos bons, provavelmente haveria menos espaço para essa ambivalência. Se não existisse afeto, partir talvez fosse muito mais simples.
A dificuldade aparece justamente quando duas frases que parecem incompatíveis precisam ocupar o mesmo espaço:
“Essa pessoa me machucou.”
e
“Eu ainda amo essa pessoa.”
Uma não necessariamente anula a outra.
E talvez seja esse um dos aspectos mais importantes da história apresentada em É Assim Que Acaba. É fácil reconhecer determinada dinâmica quando estamos do lado de fora. Quando somos nós que estamos emocionalmente envolvidos nela, as coisas podem se tornar muito menos nítidas.
É difícil reconhecer uma história quando você está vivendo dentro dela.
Compreender alguém não significa justificar aquilo que essa pessoa faz
Existe outra distinção importante aqui.
Podemos compreender que alguém possui uma história difícil. Podemos conhecer seus traumas, suas fragilidades e seus medos e até compreender alguns dos mecanismos que ajudam a explicar determinado comportamento.
Mas compreender não significa justificar.
Explicação não é absolvição.
Uma história de sofrimento pode nos ajudar a entender por que alguém desenvolveu determinados comportamentos. Ela não transforma violência, humilhação, controle ou agressão em formas aceitáveis de relacionamento.
Esse ponto é particularmente importante porque, em relações marcadas por ambivalência, existe uma tendência compreensível de tentar conciliar aquilo que sabemos sobre a história de uma pessoa com aquilo que ela está fazendo conosco. Podemos pensar em tudo o que ela sofreu, lembrar dos seus momentos de fragilidade e reconhecer aspectos genuinamente bons de sua personalidade.
Nada disso torna aceitável aquilo que nos machuca.
Talvez exista uma conclusão difícil justamente aí: uma pessoa não precisa se transformar em um monstro para que você precise se afastar dela.
É possível reconhecer a humanidade de alguém e, ao mesmo tempo, reconhecer que não podemos continuar vivendo daquela maneira.
Repetição não é destino
Falar sobre padrões familiares exige cuidado porque existe o risco de transformar uma possibilidade psicológica em uma sentença: “Se vivi isso na infância, então vou repetir na vida adulta.”
Não é assim.
Ter crescido em uma família marcada por conflitos não significa que você terá relacionamentos conflituosos. Ter presenciado violência não significa que viverá violência. Da mesma maneira, ter tido pais emocionalmente indisponíveis não significa que necessariamente escolherá parceiros indisponíveis.
Nossa história influencia, mas não escreve sozinha o restante da nossa vida.
Experiências posteriores, relações seguras, amadurecimento, reflexão e, em alguns casos, psicoterapia podem modificar profundamente a maneira como nos relacionamos.
Às vezes, o primeiro passo é perceber como algo que parecia simplesmente “o meu jeito de amar” pode ter uma história por trás.
Por que determinadas pessoas me atraem tanto? Por que tenho dificuldade de colocar limites? Por que sinto que preciso conquistar o amor do outro? Por que uma relação tranquila pode me causar estranhamento?
Não precisamos transformar isso em um interrogatório sobre a própria infância, nem procurar culpados no passado. A questão é outra: compreender onde aprendemos algumas das regras que talvez ainda estejamos utilizando nas relações atuais.
E, principalmente, perceber se elas ainda fazem sentido.
Talvez romper um ciclo comece aqui
Romper um padrão não significa rejeitar a própria história. Também não significa responsabilizar os pais por todas as escolhas que fazemos na vida adulta.
Significa conseguir olhar para aquilo que aprendemos e decidir o que ainda queremos carregar conosco.
Algumas pessoas passam anos tentando não se tornar seus pais. Talvez exista uma tarefa ainda mais profunda: perceber quais partes daquela história continuam presentes na maneira como amamos, escolhemos, toleramos, esperamos e nos relacionamos.
Porque nem sempre repetimos aquilo que queremos.
Às vezes, repetimos aquilo que aprendemos a reconhecer como relação.
Amadurecer afetivamente talvez não seja apenas descobrir aquilo que queremos encontrar em alguém. Pode ser também perceber quanto do que aprendemos sobre o amor continua participando das nossas escolhas, mesmo quando acreditamos estar escolhendo sozinhos.
Quando conseguimos enxergar isso, nossa história deixa de ser apenas algo que aconteceu conosco. Ela passa a ser algo que podemos compreender.
E aquilo que conseguimos compreender já não precisa, necessariamente, continuar se repetindo.
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Entenda por que algumas respostas emocionais parecem se repetir automaticamente e como experiências anteriores podem participar da maneira como reagimos no presente.
Nem sempre ouvimos apenas aquilo que o outro está dizendo. Nossa história, inseguranças e experiências anteriores também podem interferir na forma como interpretamos uma conversa.
Uma reflexão sobre escuta, reciprocidade, conflitos e a construção de uma comunicação mais saudável dentro dos relacionamentos.
Dr. Luciano Cherubini
Médico Psiquiatra
CRM-SP 96061 | RQE 118809
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