Foi assim que a consulta começou.
A esposa me contou que estão casados há 30 anos.
Segundo ela, o marido sempre foi calado, retraído, dormia muito e quase não tomava iniciativa.
Mas, nas últimas duas semanas, tudo mudou.
Passou a falar sem parar.
Ficou extremamente comunicativo.
Cheio de planos.
Muito mais carinhoso.
Ela até usou uma palavra que me chamou a atenção:
"Pegajoso."
Perguntei:
— Ele já foi assim alguma vez nesses 30 anos?
Ela respondeu:
— Nunca.
Então eu disse:
— Imagino que, em algum momento, você tenha olhado para ele e pensado:
"Esse não é o meu marido."
Ela concordou imediatamente.
Depois de trinta anos dividindo a mesma casa, ela conhecia o marido sem precisar observá-lo. Conhecia o jeito de fechar a porta, de responder às perguntas, de caminhar pela casa, de demonstrar carinho, de dormir.
Quando tudo isso mudou em poucos dias, a primeira reação não foi felicidade.
Foi estranhamento.
Essa cena revela um dos aspectos menos conhecidos de uma doença que costuma ser muito mal compreendida.
Muitas vezes, ela não começa com um comportamento que chama a atenção do próprio paciente. Começa com o estranhamento de quem convive com ele todos os dias.
Muito antes de existir um diagnóstico, existe apenas uma sensação difícil de explicar: a de que aquela pessoa deixou, de repente, de ser quem sempre foi.
Talvez seja justamente por isso que tantas pessoas demorem para procurar ajuda.
É justamente desse transtorno que estou falando:Transtorno Bipolar.
Existe uma ideia muito difundida de que mania significa apenas estar feliz.
Nem sempre.
Alguns episódios são marcados por euforia e sensação de bem-estar. Outros são dominados por irritabilidade, impaciência, explosões de raiva, inquietação intensa e uma aceleração tão grande dos pensamentos que a própria pessoa sente dificuldade para descansar.
O elemento central não é simplesmente a felicidade, mas uma alteração importante do funcionamento habitual da mente.
Aos poucos, aquilo que parecia apenas uma fase de entusiasmo começa a ocupar todos os espaços da vida. O sono diminui. As conversas tornam-se mais longas. Os projetos se multiplicam. A pessoa fala mais do que o habitual, sente-se extremamente comunicativa, inicia várias atividades ao mesmo tempo e passa a acreditar que pode fazer muito mais do que antes. Em muitos casos, surgem decisões precipitadas, gastos impulsivos e riscos que, em circunstâncias normais, jamais seriam assumidos.
Para quem observa de fora, parece que aquela pessoa simplesmente mudou de personalidade.
E é justamente aí que mora um dos maiores desafios dessa doença.
Na prática, essa mudança nem sempre acontece de forma abrupta. Muitas famílias conseguem apontar o momento em que perceberam que "alguma coisa estava diferente". Mas, quando relembram os dias anteriores, costumam notar que a transformação já vinha acontecendo silenciosamente.
Frequentemente, um dos primeiros sinais é a redução da necessidade de sono. Depois, a pessoa passa a falar mais, torna-se mais expansiva, mais ativa, faz planos em excesso e, aos poucos, começa a tomar decisões cada vez mais impulsivas.
É justamente essa progressão que faz com que, muitas vezes, os primeiros sinais sejam interpretados apenas como uma fase de maior disposição, entusiasmo ou motivação.
Mas existe outro aspecto que costuma ser pouco lembrado.
O transtorno bipolar não é composto apenas pelos episódios de mania ou hipomania. Em muitos pacientes, a maior parte do sofrimento acontece justamente durante os episódios depressivos.
É quando surgem a perda de energia, o desânimo profundo, a dificuldade para sentir prazer, a culpa, a desesperança e o comprometimento importante da vida profissional, familiar e social.
Em outras palavras, a mesma doença que pode acelerar a mente também pode, em outro momento, retirar completamente o impulso para viver o cotidiano.
Há ainda uma dificuldade importante no tratamento.
Quando a pessoa está deprimida, geralmente deseja melhorar. Mas, durante um episódio de mania ou hipomania, isso nem sempre acontece.
Muitos pacientes sentem-se extremamente produtivos, criativos, confiantes e cheios de energia. Alguns chegam a descrever esse período como uma das melhores fases da própria vida. É justamente aí que mora o perigo.
Enquanto tudo parece finalmente estar dando certo, decisões impulsivas começam a produzir consequências que só serão percebidas quando o episódio terminar.
Dívidas, rompimentos afetivos, conflitos familiares, dificuldades profissionais e comportamentos de risco frequentemente só são percebidos quando o humor retorna ao seu estado habitual.
Por isso, nem sempre compreendem por que os familiares estão preocupados ou por que o médico propõe um tratamento. Na visão deles, quem mudou foi para melhor.
Talvez seja justamente isso que torne o transtorno bipolar tão complexo.
Diferentemente de muitas doenças, nas quais o sofrimento leva a pessoa a procurar ajuda, durante a mania ou a hipomania o próprio sintoma pode convencê-la de que nunca esteve tão saudável.
Enquanto a família percebe que algo saiu do lugar, o próprio paciente pode acreditar que nunca esteve tão bem.
Essa é uma das situações mais difíceis para quem convive com alguém em um episódio de mania ou hipomania.
De um lado, o paciente sente-se mais disposto, mais produtivo, mais comunicativo e, muitas vezes, afirma que nunca esteve tão bem.
Do outro, a família observa uma pessoa que deixou de agir como sempre agiu. Surgem preocupações com decisões impulsivas, gastos inesperados, mudanças no comportamento, conflitos e situações de risco.
Não é raro que os familiares procurem ajuda antes mesmo do próprio paciente, justamente porque são eles que percebem que aquela mudança não representa apenas uma fase de entusiasmo, mas uma ruptura com a forma de ser daquela pessoa que conhecem há tantos anos.
Muitas pessoas acreditam que bipolaridade significa apenas "mudar de humor".
É comum ouvir frases como:
"Hoje ele acordou bravo. Deve ser bipolar."
"Ontem estava feliz, hoje está triste. É bipolar."
Mas o transtorno bipolar não se resume às oscilações emocionais do dia a dia.
Todos nós mudamos de humor. Ficamos alegres, irritados, frustrados ou desanimados conforme os acontecimentos da vida.
No transtorno bipolar, porém, ocorrem episódios de alteração do humor que costumam persistir por dias ou semanas, acompanhados de mudanças importantes na energia, no comportamento, na necessidade de sono, na velocidade dos pensamentos, na capacidade de julgamento e, em alguns casos, até na percepção da própria realidade.
Curiosamente, nem sempre o paciente percebe que algo está errado.
Quem costuma notar primeiro são as pessoas que convivem com ele: esposas, maridos, filhos, pais.
São eles que dizem:
"Ele não era assim."
"Ela mudou completamente."
Essa mudança costuma ser tão intensa que muitos familiares descrevem a sensação de estar convivendo com outra pessoa.
Não é apenas alguém de bom humor.
É alguém que deixou de agir como sempre agiu durante toda uma vida.
Por isso, é importante evitar o uso indiscriminado da palavra "bipolar".
Além de reforçar estigmas, essa banalização dificulta o reconhecimento de uma doença real, potencialmente grave e que pode ser tratada quando identificada precocemente.
Reconhecer esses episódios precocemente não significa apenas controlar os sintomas. Significa também reduzir o risco de prejuízos que a doença pode provocar ao longo do tempo, como conflitos familiares, rompimentos afetivos, dificuldades profissionais, perdas financeiras decorrentes de decisões impulsivas e novas recaídas.
Além disso, durante os episódios depressivos, o transtorno bipolar pode estar associado a um aumento importante do risco de suicídio. Esse é um dos motivos pelos quais o diagnóstico precoce e o tratamento adequado são tão importantes.
Nem toda mudança de humor é transtorno bipolar.
Mas, quando alguém parece, de repente, ter se tornado outra pessoa, vale a pena investigar.
Porque, antes de existir um diagnóstico, muitas vezes existe apenas uma pergunta dentro de casa:
"O que aconteceu com ele?"
Ou:
"O que aconteceu com ela?"
E, em alguns casos, é justamente essa pergunta que marca o verdadeiro início de um diagnóstico.
Talvez seja justamente por isso que algumas das maiores lições sobre a mente humana não nasçam dos livros.
Nasçam quando alguém entra em um consultório e diz:
"Doutor, esse não é o meu marido."
Esta narrativa faz parte da coleção Histórias do Consultório, um conjunto de histórias inspiradas em situações observadas ao longo da prática clínica. Mais do que relatar casos, a proposta desta série é aproximar o leitor da experiência humana por trás dos transtornos mentais, mostrando como eles podem modificar pensamentos, emoções, comportamentos e relações muito antes de receberem um nome.
Embora inspirada em situações observadas ao longo da prática clínica, esta narrativa não corresponde à reprodução literal de um único atendimento. Personagens, diálogos, circunstâncias e detalhes foram modificados, combinados ou reconstruídos para preservar integralmente a identidade, a privacidade e o sigilo dos pacientes.
Médico Psiquiatra
CRM-SP 96061 • RQE 118809
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Cada história desta coleção apresenta uma forma diferente pela qual o sofrimento psíquico pode se manifestar no cotidiano. Explore outras narrativas e descubra como diferentes transtornos podem transformar a maneira de sentir, pensar, perceber a realidade e se relacionar com o mundo.
Histórias do Consultório
Histórias do Consultório reúne narrativas inspiradas em situações observadas ao longo da prática clínica. Cada história parte de uma experiência diferente para mostrar como os transtornos mentais podem se manifestar muito além dos sintomas que costumamos reconhecer.
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