Por que nunca acredito que sou capaz de conseguir o que desejo?

Nem sempre a maior dificuldade é a falta de capacidade. Muitas vezes, é a dificuldade em reconhecer a própria capacidade.

Recentemente conversei com um amigo que chamarei de Eli.

Eli é engenheiro e recebeu uma proposta para trabalhar em uma grande empresa no exterior. Era uma oportunidade importante, compatível com sua experiência profissional e resultado de muitos anos de estudo, dedicação e crescimento na carreira.

Homem diante de uma importante oportunidade profissional, mas tomado pela dúvida sobre sua própria capacidade.
Muitas vezes, o maior obstáculo não está na oportunidade, mas na forma como enxergamos a nós mesmos.

Enquanto muitas pessoas comemorariam imediatamente uma oportunidade como essa, Eli pensava seriamente em recusá-la. Não por falta de interesse, mas porque tinha medo de fracassar.

Durante nossa conversa, percebi algo curioso. Eu via diante de mim um profissional experiente, competente e preparado para assumir aquele desafio. Ele, porém, parecia enxergar uma pessoa completamente diferente.

O mais curioso é que Eli não tinha medo do trabalho em si. O medo era descobrir que todos estavam enganados a seu respeito. Como se, ao aceitar aquela vaga, finalmente alguém percebesse que ele nunca havia sido tão competente quanto aparentava.

É interessante observar como algumas pessoas conseguem conviver durante anos com a sensação de que, a qualquer momento, serão "descobertas". Apesar das conquistas, continuam acreditando que chegaram até ali por sorte, por circunstâncias favoráveis ou porque os outros superestimaram suas capacidades.

Falava sobre suas falhas, questionava sua própria capacidade, minimizava suas conquistas e enumerava todos os motivos pelos quais acreditava que poderia não dar certo.

Parecia existir uma enorme distância entre a realidade de sua trajetória e a forma como ele a percebia.

Essa conversa me fez refletir sobre um fenômeno que observo com frequência tanto no consultório quanto fora dele: muitas pessoas sofrem não pela falta de capacidade, mas pela dificuldade em reconhecer a própria capacidade.

Todos nós temos dúvidas em determinados momentos. Antes de uma entrevista de emprego, de uma prova importante, de uma mudança profissional ou de uma decisão que envolve riscos, é natural sentir insegurança. A dúvida faz parte da condição humana.

O problema começa quando a dúvida deixa de ser uma pergunta e passa a ser uma certeza.

Quando a pessoa não pensa mais "e se eu não conseguir?", mas passa a acreditar firmemente que não conseguirá.

Nesse momento, ela deixa de avaliar suas possibilidades de forma equilibrada e passa a enxergar a si mesma através de uma lente distorcida.

Nosso cérebro não interpreta apenas os acontecimentos. Ele interpreta os acontecimentos a partir da imagem que construímos de nós mesmos. Quando desenvolvemos uma percepção muito negativa de nós mesmos, isso passa a funcionar como um filtro. As informações que confirmam essa visão costumam ser rapidamente aceitas. Já aquelas que a contradizem tendem a ser minimizadas, questionadas ou simplesmente ignoradas.

É por isso que uma crítica pode permanecer na memória durante anos, enquanto dezenas de elogios parecem perder força em poucos minutos.

É comum encontrarmos pessoas extremamente competentes que não conseguem reconhecer suas próprias qualidades.

Não foram poucas as vezes em que ouvi, durante uma consulta, frases como:

"Doutor, qualquer outra pessoa conseguiria fazer isso. Eu não."

O curioso é que, muitas vezes, quem dizia isso era justamente uma das pessoas mais preparadas que passaram pelo consultório. A competência existia. O que estava comprometido era a capacidade de reconhecê-la.

Elas tendem a lembrar dos erros com facilidade, mas têm dificuldade em valorizar suas conquistas. Quando algo dá errado, enxergam aquilo como prova de sua incapacidade. Quando algo dá certo, costumam atribuir o resultado à sorte, à ajuda de terceiros ou a circunstâncias favoráveis.

Pessoa cercada por pensamentos de autocrítica e insegurança, simbolizando a sensação de incompetência apesar da própria capacidade.
Muitas vezes, a maior batalha acontece dentro da própria mente.

Pouco a pouco, essa forma de interpretar a realidade começa a influenciar decisões importantes.

Uma pessoa que acredita não ser capaz tende a evitar desafios. Quem acredita que será rejeitado tende a evitar aproximações. Quem acredita que fracassará tende a desistir antes mesmo de tentar.

E é justamente aí que surge uma armadilha perigosa. Ao evitar situações que geram medo, a pessoa nunca tem a oportunidade de testar suas crenças. Como consequência, continua acreditando que suas limitações são maiores do que realmente são.

Nesse ponto, existe uma distinção que considero fundamental.

Existe uma diferença importante entre incompetência e sensação de incompetência. A incompetência melhora com estudo, treinamento, experiência e prática. A sensação de incompetência, por outro lado, pode permanecer mesmo quando a competência já existe. É justamente por isso que encontramos pessoas extremamente capazes vivendo como se nunca fossem suficientes. Enquanto uma depende de aprendizado, a outra depende de uma mudança na maneira como a pessoa interpreta a si mesma.

"Existe uma diferença importante entre incompetência e sensação de incompetência. A primeira melhora com estudo e experiência. A segunda pode permanecer mesmo quando a competência já existe."

— Dr. Luciano Cherubini • Médico Psiquiatra

Muitas vezes, as crenças que carregamos sobre nós mesmos começaram a ser construídas há muito tempo. Algumas pessoas cresceram em ambientes marcados por críticas constantes. Outras foram educadas sob níveis excessivos de cobrança. Algumas ouviram tantas vezes que não eram boas o suficiente que acabaram incorporando essa mensagem como uma verdade absoluta.

Com o tempo, essas conclusões deixam de ser apenas lembranças do passado e passam a funcionar como uma forma automática de interpretar a realidade. É justamente por isso que começamos a procurar evidências que confirmem aquilo em que já acreditamos.

Sem perceber, passamos a construir uma narrativa que reforça exatamente aquilo que mais nos machuca.

Por isso, vale a pena prestar atenção ao próprio diálogo interno.

Frases como "eu nunca consigo", "não sou capaz", "isso não é para mim" ou "não tenho competência suficiente" costumam aparecer com frequência em pessoas que convivem com dúvidas profundas sobre si mesmas.

O problema é que esses pensamentos geralmente são tratados como fatos, quando muitas vezes são apenas interpretações.

E interpretações podem estar erradas.

Se existe uma reflexão que considero importante, é esta: nem tudo aquilo que pensamos sobre nós mesmos corresponde à realidade. Às vezes, somos muito mais severos em nossos julgamentos pessoais do que seríamos ao avaliar qualquer outra pessoa.

Voltando ao meu amigo Eli, fiz uma pergunta simples durante nossa conversa.

Perguntei se ele estaria disposto a passar os próximos anos imaginando como teria sido sua vida caso tivesse aceitado aquela oportunidade.

Perguntei se o arrependimento de nunca tentar seria realmente mais confortável do que enfrentar o risco de não dar certo.

A resposta não veio imediatamente.

Mas acredito que aquela pergunta o fez perceber algo importante: o medo do fracasso já estava produzindo consequências reais antes mesmo de qualquer fracasso acontecer.

Talvez esse seja um dos maiores poderes das crenças limitantes.

Elas não precisam ser verdadeiras para modificar a forma como vivemos.

Basta que acreditemos nelas.

Talvez o maior prejuízo da dúvida crônica não seja impedir que você alcance todos os seus objetivos.

Talvez seja impedir que você descubra quem poderia se tornar se deixasse de acreditar em tudo aquilo que sua insegurança insiste em dizer a seu respeito.

Saiba que, infinitamente pior do que a dúvida de qualquer pessoa a respeito de suas capacidades, é a tua própria dúvida a respeito de si mesmo.

Essa, sim, pode limitar escolhas, impedir oportunidades e fazer com que alguém passe a vida inteira sem jamais descobrir do que realmente era capaz.

"Quando você duvida do seu poder, você dá poder à sua dúvida."

— Honoré de Balzac

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A famosa cena do filme À Procura da Felicidade mostra um pai dizendo ao filho para nunca permitir que outras pessoas limitem seus sonhos. É uma mensagem poderosa. Mas, na prática clínica, muitas vezes percebo que o maior obstáculo não é a descrença dos outros. É a nossa própria dificuldade em acreditar naquilo que somos capazes de realizar.

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Sobre o autor

Sou Dr. Luciano Cherubini, médico psiquiatra (CRM-SP 96061 | RQE 118809), com 30 anos de experiência no atendimento de crianças, adolescentes, adultos e idosos.

Ao longo da minha trajetória, acompanhei milhares de pessoas enfrentando ansiedade, depressão, síndrome do pânico, transtorno bipolar, TDAH, transtornos psicóticos, burnout, dependência química e diversos outros desafios relacionados à saúde mental.

Meu objetivo neste espaço é traduzir conhecimentos da psiquiatria para uma linguagem acessível, ajudando o leitor a compreender melhor os mecanismos da mente humana e incentivando a busca por tratamento quando necessário.


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