A Vida Secreta de Walter Mitty: uma reflexão sobre viver no automático

Cena do filme A Vida Secreta de Walter Mitty em que o personagem salta sobre a cidade, evocando temas de fuga interna, presença e mudança de trajetória.
Uma reflexão clínica a partir do filme A Vida Secreta de Walter Mitty sobre viver no automático, fuga interna e o difícil retorno à presença.


Uma reflexão clínica a partir do filme A Vida Secreta de Walter Mitty sobre viver no automático, fuga interna e o difícil retorno à presença.


O fim de semana chega novamente — e com ele, a oportunidade de indicar mais um filme que vale menos como entretenimento e mais como convite à reflexão.

A Vida Secreta de Walter Mitty é uma dessas obras que, sem falar explicitamente de saúde mental, consegue tocar em algo muito familiar para muitas pessoas: a sensação de estar vivendo, mas não exatamente presente na própria vida.

Lançado em 2013 e inspirado no conto homônimo publicado em 1939 por James Thurber, o filme retoma um personagem criado décadas antes para falar de algo que segue atual: vidas que funcionam por fora, mas que vão se esvaziando por dentro.

Walter Mitty não é alguém em sofrimento evidente. Ele trabalha, cumpre suas funções, ajuda colegas, evita conflitos e mantém tudo funcionando. Não há crise, não há colapso, nada que, do lado de fora, chame atenção. Pelo contrário: ele é o tipo de pessoa que passa despercebida justamente porque “dá conta”.

O que o filme mostra, com delicadeza, é que esse funcionamento contínuo pode coexistir com um esvaziamento silencioso. Os dias se repetem, as tarefas são cumpridas, mas a experiência de estar vivo vai ficando distante. A vida acontece, mas não deixa marcas internas. Falta presença, envolvimento, sensação de pertencimento.

Um dos recursos narrativos mais marcantes do filme são os devaneios de Walter. Ele imagina versões heroicas de si, diálogos perfeitos, atitudes corajosas que nunca se concretizam no mundo real. Esses momentos não surgem como simples fantasia. Funcionam como uma saída psíquica possível quando a vida concreta oferece pouco espaço para existir emocionalmente.

Quando o cotidiano se torna excessivamente estreito, previsível ou apagado, a mente encontra caminhos para continuar respirando. Em vez de agir, imagina. Em vez de viver, ensaia internamente. Isso não é fraqueza. É adaptação.

Talvez por isso o filme tenha causado estranhamento em parte do público quando foi lançado. Muitos esperavam uma história de aventura ou superação nos moldes tradicionais — e encontraram algo mais silencioso, contido, quase introspectivo. Walter não enfrenta grandes antagonistas externos. Ele começa, aos poucos, a deixar de se esconder de si mesmo. É uma narrativa que pede tempo, disponibilidade e alguma abertura para acompanhar processos internos, mais do que reviravoltas visíveis.

O desconforto de Walter não vem da incapacidade. Ele não sofre porque não consegue. Sofre porque aprendeu, ao longo do tempo, a caber demais, a não ocupar espaço, a não arriscar. Esse tipo de sofrimento raramente chama atenção — mas cobra um preço: a sensação persistente de ser espectador da própria história.

O filme também é preciso ao mostrar que o despertar não acontece por uma grande compreensão racional. Walter não “se entende” subitamente. O que o desloca é o movimento. Quando o corpo entra em ação e o mundo deixa de ser apenas imaginado, algo começa a se reorganizar.

Na prática clínica, isso é bastante reconhecível: muitas vezes, a presença retorna antes do insight. O corpo costuma chegar antes da explicação.

Ao longo da jornada, fica claro que Walter nunca foi vazio. Ele estava soterrado — pela rotina, pela autocrítica, pela invisibilidade e pela ideia de que sua vida precisava ser pequena. Quando começa a viver de fato, ele não se transforma em outra pessoa. Ele retorna a si.

Essas vivências — silenciosas, funcionais por fora e desconectadas por dentro — também atravessam o livro Quando olhei no espelho e não quis me ver, que explora justamente esse momento em que a pessoa percebe que algo essencial ficou para trás.

É por isso que esse filme segue atual. Vivemos um tempo em que muitas pessoas não estão em sofrimento agudo, mas em um apagamento gradual. Pessoas que não estão em crise, mas também não estão bem.

Esse estado intermediário costuma gerar dúvidas: “isso é ansiedade?”

Em muitos casos, não se trata de crises evidentes, mas de um funcionamento prolongado em modo de alerta e adaptação. Escrevi sobre isso de forma mais aprofundada no texto “Não sei se é ansiedade, mas não consigo desligar”.

A Vida Secreta de Walter Mitty não acusa, não diagnostica e não oferece soluções rápidas. Apenas sustenta uma pergunta incômoda e necessária:

Em que momento viver virou apenas dar conta?

Funcionar mantém a vida andando.
Mas é a presença que faz com que ela seja sentida.


Filmes podem abrir reflexões importantes, mas não substituem acompanhamento profissional quando o afastamento de si se torna persistente, quando o cansaço não passa ou quando a vida começa a perder sentido. Nessas situações, buscar ajuda não é exagero — é cuidado.

Nem sempre esse afastamento aparece como sofrimento intenso ou crise evidente. Muitas vezes, ele se manifesta como um funcionamento prolongado no automático, como a sensação de estar sempre dando conta, mas cada vez menos presente.

Mudar não costuma ser simples. E, quase nunca, acontece de uma vez.

Na vida real, mudanças importantes acontecem em processo — aos poucos, com avanços e recuos, com ajustes de rota. Esperar transformações rápidas costuma gerar mais frustração do que alívio.

Por isso, muitas vezes, não se trata de grandes decisões imediatas. Trata-se de pequenas reorganizações possíveis. De perceber o que já não funciona mais do jeito que vem sendo sustentado.

Reconhecer isso não é sinal de fraqueza.
É sinal de atenção.

Se este texto ajudou você a se reconhecer em padrões de funcionamento automático, de distanciamento interno ou de vida excessivamente adaptada, talvez faça sentido aprofundar essa reflexão com mais calma.




Convido você a explorar outros textos disponíveis no site, que abordam saúde mental a partir da experiência real, sem simplificações.

Agradeço por ter ficado até aqui.
Retorne sempre que sentir necessidade.


Dr. Luciano Cherubini Junior
Médico Psiquiatra
CRM 96061 · RQE 118809
Registro – SP · Vale do Ribeira


Leituras complementares

Se quiser aprofundar a reflexão, talvez estes textos dialoguem com o que você leu aqui:

  • Quem sou eu? Qual a minha identidade? Por que isso importa?

  • Sinais de que é hora de buscar ajuda em saúde mental

  • Por que me sinto preso em pensamentos negativos

  • Não consigo lidar com pequenos aborrecimentos

  • A fome da certeza

  • Preciso ser perfeccionista e ter controle de tudo?

  • Check-up em saúde mental


Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem

Formulário de contato