Algumas pessoas passam a vida inteira acumulando conquistas. Ainda assim, convivem com a sensação de que, mais cedo ou mais tarde, alguém descobrirá que nunca mereceram estar onde chegaram.
Naquele dia, Eli entrou no consultório carregando uma pasta de documentos.
Era comum vê-lo organizado.
As folhas estavam alinhadas.
Os exames separados.
Algumas anotações haviam sido escritas à mão nas margens de um caderno que ele sempre trazia consigo.
Mas não foi a pasta que chamou minha atenção.
Foi o rosto.
Era o tipo de expressão que costumo ver em pessoas prestes a comunicar uma perda.
Não uma conquista.
Havia uma tensão silenciosa difícil de explicar. Não parecia a ansiedade de alguém diante de uma decisão importante. Parecia o peso de quem já havia desistido antes mesmo de conversar comigo.
Sentou-se devagar.
Permaneceu alguns segundos olhando para as próprias mãos.
Respirou profundamente antes de falar.
— Doutor... eu já decidi.
Perguntei:
— Decidiu o quê?
Ele respirou outra vez.
Como quem precisava encontrar coragem para dizer algo que, na verdade, já estava decidido muito antes daquela consulta.
— Não vou aceitar a vaga.
Fiquei alguns segundos em silêncio.
Não sabia de qual vaga ele estava falando.
Ele percebeu minha expressão e sorriu discretamente.
Um sorriso sem alegria.
Quase um pedido de desculpas por ter começado a história pelo final.
Então começou a explicar.
Era engenheiro.
Depois de muitos anos trabalhando na mesma área, havia participado de um longo processo seletivo para uma grande empresa no exterior.
Foram meses de entrevistas.
Avaliações técnicas.
Apresentações.
Discussões de projetos.
Reuniões com diferentes gestores.
Dias antes daquela consulta, recebera a resposta.
Havia sido aprovado.
Era exatamente o tipo de oportunidade que muitos profissionais esperam durante toda a carreira.
Para alguém que acabara de receber a maior oportunidade da carreira, havia uma emoção que não deveria estar ali.
Não havia entusiasmo.
Não havia orgulho.
Havia medo.
Perguntei:
— Posso perguntar por quê?
Ele permaneceu olhando para as próprias mãos.
Quando respondeu, quase não levantou a voz.
— Porque escolheram a pessoa errada.
A frase permaneceu alguns segundos entre nós.
Não havia qualquer traço de falsa modéstia.
Nem aquela tentativa educada de diminuir as próprias conquistas.
Ele realmente acreditava naquilo.
Perguntei o que queria dizer.
Então iniciei uma sequência de perguntas.
— Eles analisaram seu currículo?
— Sim.
— Conversaram com você durante as entrevistas?
— Sim.
— Avaliaram sua experiência?
— Sim.
— Viram seus projetos?
— Sim.
— Aplicaram provas técnicas?
— Também.
Olhei para ele.
— Então por que acredita que escolheram a pessoa errada?
Ele demorou alguns segundos para responder.
Quando falou, sua voz parecia carregar um peso que não cabia naquela sala.
— Porque eles conhecem o meu currículo.
— Eu conheço quem eu realmente sou.
Foi naquele instante que compreendi que aquela consulta nunca seria sobre uma vaga de emprego.
Seria sobre uma das formas mais silenciosas pelas quais alguém aprende a duvidar do próprio valor.
Conhecia Eli havia algum tempo.
Era um daqueles pacientes que costumam chegar alguns minutos antes da consulta.
Raramente esquecia um exame.
Quando precisava anotar alguma orientação, fazia questão de registrar cada detalhe.
Falava pouco.
Escutava muito.
Sempre me pareceu o tipo de pessoa em quem os colegas confiavam justamente porque dificilmente tomava decisões precipitadas.
Também era um profissional experiente.
Ao longo dos anos, já havia resolvido problemas complexos, coordenado equipes, conduzido projetos importantes e conquistado o respeito de pessoas que trabalhavam com ele.
Eu via diante de mim alguém preparado.
Ele parecia enxergar outra pessoa.
Às vezes, o sofrimento não nasce da falta de competência.
Nasce da incapacidade de acreditar nela.
Continuei ouvindo.
Sem que eu percebesse, a conversa começou a seguir sempre o mesmo caminho.
Toda vez que mencionava alguma conquista, Eli imediatamente encontrava uma explicação para retirar de si qualquer mérito.
— Acho que tive sorte.
— Havia candidatos mais preparados.
— O projeto deu certo porque a equipe era excelente.
— Qualquer outra pessoa teria conseguido o mesmo resultado.
— Acho que, naquela época, ninguém percebeu minhas limitações.
Enquanto ele falava, comecei a notar algo curioso.
Nenhuma conquista permanecia em suas mãos por muito tempo.
Poucos segundos depois de ser lembrada, ela já pertencia à sorte.
À equipe.
À empresa.
Ao acaso.
Qualquer explicação parecia aceitável.
Desde que não fosse reconhecer a própria competência.
Perguntei então sobre os momentos em que as coisas não haviam dado certo.
Dessa vez, a resposta veio sem qualquer hesitação.
— A culpa foi minha.
Ali não existiam sorte.
Nem circunstâncias.
Nem fatores externos.
Os erros nunca eram divididos.
Pertenciam inteiramente a ele.
Algumas pessoas transformam cada conquista em um acidente...
...e cada erro em uma prova definitiva de incompetência.
Mesmo diante de resultados, reconhecimento e experiência, algumas pessoas continuam acreditando que nunca fizeram o bastante para merecer estar onde chegaram.
Enquanto o ouvia, lembrei-me de quantas vezes já havia encontrado exatamente esse mesmo funcionamento ao longo dos anos.
Médicos.
Engenheiros.
Professores.
Empresários.
Pesquisadores.
Estudantes brilhantes.
Todos considerados altamente competentes por quem trabalhava ao seu lado.
Havia algo que as aproximava.
Quando recebiam uma crítica, acreditavam nela imediatamente.
Quando recebiam um elogio, começavam a procurar motivos para desacreditá-lo.
Como se a própria mente funcionasse como um juiz incapaz de aceitar qualquer evidência favorável.
Naquele momento, a vaga de emprego já havia deixado de ser o assunto principal.
O verdadeiro problema estava muito antes dela.
Estava na forma como Eli interpretava a própria história.
Permanecemos alguns segundos em silêncio.
Ele continuava olhando para o chão.
Eu pensava em quantas respostas já haviam surgido naquela consulta sem que ele próprio percebesse.
Foi então que resolvi mudar a direção da conversa.
Em vez de discutir a vaga, decidi revisitar o caminho que o havia levado até ela.
— Você se lembra de quando terminou a faculdade?
Pela primeira vez desde que entrou no consultório, ele sorriu discretamente.
— Lembro.
— Foi difícil?
— Muito.
— E como você explica ter conseguido?
Ele respondeu sem pensar.
— Acho que tive sorte.
Assenti.
— Então vamos imaginar outra situação.
— Se outra pessoa estudasse exatamente o que você estudou...
— Fizesse os mesmos estágios...
— Trabalhasse durante os mesmos anos...
— Enfrentasse os mesmos problemas...
— Resolvesse os mesmos projetos...
— Ela chegaria até aqui?
Eli permaneceu em silêncio.
Não parecia uma pergunta difícil.
Mas, pela expressão dele, talvez fosse.
Depois de alguns segundos, respondeu.
— Talvez.
Perguntei novamente.
— E você?
— Depois de tudo o que viveu, acredita que também chegaria até aqui?
Ele desviou o olhar.
Não respondeu.
Às vezes, o silêncio diz mais do que qualquer argumento.
Foi naquele instante que percebi algo importante.
O problema nunca havia sido a falta de evidências.
Era a incapacidade de aceitá-las.
— Você percebe que usa critérios completamente diferentes para julgar a mesma pessoa?
Ele franziu a testa.
Continuei.
— Quando acerta, você procura uma explicação para diminuir o próprio mérito.
— Quando erra, não procura explicação nenhuma.
— Apenas conclui que nunca foi bom o suficiente.
Ele permaneceu em silêncio.
Não era o silêncio de quem discordava.
Era o silêncio de quem começava a reconhecer um padrão que o acompanhava havia muitos anos.
Ao longo da profissão, aprendi que existem pessoas que sofrem porque fracassam.
Mas existe outro tipo de sofrimento.
Muito mais silencioso.
O daquelas que conseguem alcançar resultados extraordinários sem jamais conseguir acreditar que realmente os mereceram.
Por fora, costumam ser vistas como competentes.
Por dentro, convivem com a sensação permanente de que ocupam um lugar que nunca lhes pertenceu.
Existe uma diferença profunda entre ainda não estar preparado...
...e acreditar que nunca será suficiente, mesmo quando toda a vida aponta na direção contrária.
Nas últimas décadas, a psicologia passou a estudar esse funcionamento com mais atenção.
Popularmente, ele ficou conhecido como Síndrome do Impostor.
Apesar do nome, não se trata de um transtorno psiquiátrico formal.
É um fenômeno psicológico caracterizado pela dificuldade persistente de reconhecer as próprias competências e conquistas.
Enquanto as conquistas recebem explicações alternativas, uma expectativa silenciosa permanece.
A de que, mais cedo ou mais tarde, todos perceberão que ela nunca deveria ter chegado até ali.
Curiosamente, quase nunca existe qualquer evidência objetiva que sustente essa crença.
Ela continua existindo mesmo diante de diplomas, promoções, reconhecimento profissional e anos de experiência.
Porque o problema não está nas conquistas.
Está na maneira como a mente aprende a interpretá-las.
Quando algo dá certo, a mente procura imediatamente uma explicação capaz de preservar uma antiga crença.
A de que aquela conquista não poderia ter sido realmente merecida.
Foi sorte.
A equipe ajudou.
O desafio era simples.
Qualquer pessoa teria conseguido.
Desta vez ninguém percebeu.
Quando alguma coisa dá errado, porém, acontece exatamente o contrário.
O erro deixa de ser apenas um acontecimento.
Transforma-se em uma confirmação.
Os sucessos tornam-se exceções.
Os fracassos tornam-se provas.
Nenhuma conquista consegue produzir segurança duradoura.
Porque cada nova conquista precisa ser imediatamente explicada para que a antiga crença continue sobrevivendo.
Enquanto eu explicava tudo aquilo, Eli permanecia em silêncio.
Não parecia estar ouvindo uma descrição qualquer.
Parecia, pela primeira vez, perceber que aquele sofrimento não dizia quem ele era.
Dizia apenas a forma como aprendera a enxergar a si mesmo.
Depois de alguns instantes em silêncio, voltei à pergunta que havia dado início à consulta.
— Vamos voltar à vaga.
— O que exatamente você acredita que vai acontecer se aceitá-la?
Ele respondeu imediatamente.
— Vão descobrir que eu não sou tão bom quanto imaginam.
Perguntei:
— Descobrir o quê?
Ele pareceu surpreso.
Como se nunca tivesse imaginado que aquela certeza pudesse ser questionada.
— Que eu não deveria estar lá.
— Que contrataram a pessoa errada.
— Que existem profissionais muito melhores do que eu.
Assenti.
Esperei alguns segundos antes de continuar.
— Vamos imaginar que você esteja certo.
— O que aconteceria?
Ele franziu a testa.
Talvez esperasse que eu tentasse convencê-lo de que aquele medo era irracional.
Mas não era isso que eu pretendia.
Depois de alguns segundos, respondeu.
— Acho que voltaria para o Brasil.
— Procuraria outro emprego.
Assenti novamente.
Pela primeira vez durante toda a consulta, tive a impressão de que ele próprio começava a perceber que o pior cenário talvez não fosse tão definitivo quanto imaginava.
Então fiz outra pergunta.
— Agora imagine o contrário.
— Imagine que você recuse essa oportunidade.
— O que acontece amanhã?
— Continuo exatamente onde estou.
Perguntei:
— E daqui a um ano?
— Também.
Continuei.
— E daqui a dez anos?
Pela primeira vez desde que entrou no consultório, Eli não respondeu.
Ficou olhando para um ponto fixo da sala.
Como se tentasse enxergar uma vida que ainda não existia.
Resolvi não interromper aquele silêncio.
Algumas perguntas precisam de mais tempo do que uma consulta pode oferecer.
Depois de quase um minuto, ele falou baixinho.
— Acho que nunca mais deixaria de pensar naquela vaga.
Assenti.
Naquele instante, compreendi que o maior medo de Eli nunca foi o fracasso.
Era descobrir, tarde demais, que jamais teria coragem de tentar.
Algumas decisões não são tomadas porque acreditamos que vamos fracassar.
São tomadas porque temos medo de descobrir que talvez fôssemos capazes de dar certo.
E esse talvez seja o maior prejuízo produzido por algumas crenças.
Elas não apenas aumentam o sofrimento.
Começam, silenciosamente, a limitar o futuro antes mesmo que ele aconteça.
Quando Eli deixou o consultório naquele dia, eu ainda não sabia qual decisão tomaria.
Não sei se aceitou a vaga.
Não sei se mudou de país.
Nem se aquele projeto fez parte da vida que construiu depois.
Mas existe algo de que me lembro com clareza.
Ao entrar naquela sala, Eli acreditava que o problema estava na avaliação feita pela empresa.
Ao sair, talvez começasse a considerar uma possibilidade diferente.
Que o erro pudesse estar na avaliação que fazia de si mesmo havia muitos anos.
Talvez, pela primeira vez, Eli começasse a desconfiar de que a empresa nunca havia escolhido a pessoa errada.
Talvez quem estivesse errado fosse apenas o olhar que aprendera a lançar sobre si mesmo.
Quando a dúvida deixa de ser uma pergunta...
...e passa a funcionar como uma certeza, ela deixa de apenas provocar sofrimento.
Passa a decidir o futuro.
Ao longo dos anos, conheci pessoas extraordinariamente competentes que recusaram oportunidades, desistiram de projetos ou nunca deram o primeiro passo.
Não porque lhes faltasse inteligência.
Nem porque lhes faltasse preparo.
Mas porque passaram tempo demais acreditando na pior avaliação que alguém já fez sobre elas.
Talvez existam pessoas que fracassem porque realmente não estavam preparadas.
Mas existem muitas outras que jamais descobrem do que eram capazes...
...porque passaram a vida inteira acreditando na pior avaliação que já receberam.
A própria.
Esta narrativa faz parte da coleção Histórias do Consultório, um conjunto de histórias inspiradas em situações observadas ao longo da prática clínica. Mais do que relatar casos, a proposta desta série é aproximar o leitor da experiência humana por trás dos transtornos mentais, mostrando como eles podem modificar pensamentos, emoções, comportamentos e relações muito antes de receberem um nome.
Embora inspirada em situações observadas ao longo da prática clínica, esta narrativa não corresponde à reprodução literal de um único atendimento. Personagens, diálogos, circunstâncias e detalhes foram modificados, combinados ou reconstruídos para preservar integralmente a identidade, a privacidade e o sigilo dos pacientes.
Médico Psiquiatra
CRM-SP 96061 • RQE 118809
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