Doutor...eu sou uma pessoa perversa?

[HCMETA] ID=HC002 COLECAO=historias-do-consultorio ORDEM=2 CATALOGO=Um homem passa a acreditar que existe algo profundamente errado dentro dele. SINOPSE=Um homem procura ajuda atormentado por pensamentos que o fazem acreditar que existe algo profundamente errado dentro dele. Uma história sobre culpa, vergonha e uma das formas menos compreendidas do Transtorno Obsessivo-Compulsivo. DIAGNOSTICO=Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) LEITURA=13 minutos CAPA=https://i.ibb.co/kVCw2W3d/hc002-cabe-alho.png [/HCMETA]
Histórias do Consultório — Doutor... eu sou uma pessoa perversa?
Às vezes, o maior sofrimento não nasce dos pensamentos, mas do medo de acreditar que eles revelam quem realmente somos.


A porta se fechou lentamente.

Ele permaneceu alguns segundos em silêncio, olhando para o chão.

Não era o nervosismo habitual de quem chega pela primeira vez ao consultório.

Era diferente.

Havia algo entre a vergonha e o medo.

Como se estivesse prestes a revelar um segredo que carregava sozinho havia muito tempo.

Quando finalmente ergueu a cabeça, falou quase num sussurro.

— Doutor... antes de qualquer coisa, preciso dizer uma coisa.

Assenti em silêncio.

Ele respirou fundo.

— Eu preciso encostar nas pessoas.

A frase ficou suspensa entre nós.

Confesso que, naquele instante, imaginei algo completamente diferente do que estava prestes a ouvir.

Mas ele continuou antes que eu pudesse dizer qualquer coisa.

— Não é porque eu quero.

— Muito menos porque eu gosto.

— Na verdade... eu faria qualquer coisa para isso parar.

— Tenho medo de que pensem que sou um pervertido.

Não falava como quem procurava uma desculpa.

Falava como quem tinha medo de ser definido pelo pior pensamento que já havia passado pela própria cabeça.

E havia algo ainda mais evidente do que o medo.

Havia vergonha.

Vergonha de sentir aquela necessidade.

Vergonha de, às vezes, acabar cedendo a ela.

E um profundo desprezo por si mesmo cada vez que aquilo acontecia.

Perguntei quando tudo havia começado.

Ele demorou alguns segundos para responder.

— Faz alguns anos. No começo acontecia de vez em quando. Eu conseguia ignorar. Achava que era apenas uma ideia estranha que logo iria embora.

Mas ela não foi.

Ao contrário.

Começou a aparecer cada vez mais.

No supermercado.
Na fila do banco.
Na igreja.
No trabalho.
Em qualquer lugar onde houvesse pessoas.

Sempre da mesma forma.

Ele passava por alguém e, de repente, surgia uma urgência quase física de esfregar discretamente o braço naquela pessoa.

Não havia desejo.

Não havia prazer.

Não havia qualquer intenção de aproximação.

Havia apenas uma necessidade que parecia crescer a cada segundo.

Quanto mais tentava resistir, mais forte ela se tornava.

Faça.

Só uma vez.

Depois você volta a ser você.

Durante algum tempo, acreditou que fosse apenas uma fase.

Que bastava ignorar.

Que, se não cedesse, aquilo desapareceria sozinho.

Mas foi justamente o contrário.

Naquele momento da consulta, uma coisa já estava muito clara para mim.

Independentemente do nome que aquele sofrimento viesse a receber, ele já havia produzido um estrago profundo.

Não estava apenas aprisionando seus comportamentos.

Estava mudando a forma como aquele homem enxergava a si mesmo.

Poucas doenças conseguem ser tão cruéis quanto aquelas que convencem uma pessoa de que ela própria se tornou o problema.
Histórias do Consultório — Pensamentos que não escolhemos ter. Nem todo sofrimento vem do que fazemos. Às vezes, vem do que a mente insiste em repetir.
No Transtorno Obsessivo-Compulsivo, o sofrimento muitas vezes não nasce das ações, mas da luta constante contra pensamentos que a própria pessoa nunca desejou ter.


Ele tentou lutar contra aquilo.

Nos primeiros meses, simplesmente ignorava a vontade e seguia em frente.

Achava que, se não cedesse, aquela necessidade acabaria desaparecendo.

Mas aconteceu exatamente o contrário.

Quanto mais resistia, mais ela insistia.

Era como se sua mente se recusasse a mudar de assunto.

Tentava prestar atenção ao trabalho.
À conversa de alguém.
À televisão.
À missa.
A qualquer outra coisa.

Mas bastava passar perto de uma pessoa para o pensamento voltar.

Sempre igual.

Sempre acompanhado pela mesma urgência.

— É difícil explicar, doutor...

— Não é uma vontade.

— Parece uma obrigação.

Permaneci em silêncio.

Na psiquiatria, aprendi que, muitas vezes, o silêncio ajuda o paciente a encontrar palavras que nem sabia que possuía.

— Quanto mais eu tento não pensar... mais eu penso.

Era uma frase simples.

Mas descrevia, com precisão impressionante, um mecanismo que eu já havia visto inúmeras vezes no consultório.

Perguntei o que acontecia quando conseguia resistir.

A resposta veio imediatamente.

— A ansiedade vai aumentando.

— Parece que alguma coisa aperta aqui dentro.

— Eu fico inquieto.

Não consigo prestar atenção em mais nada.

Só consigo pensar que preciso fazer aquilo.

Perguntei o que acontecia quando, finalmente, cedia.

Ele abaixou a cabeça.

— Passa.

— Na hora passa.

Pela primeira vez desde o início da consulta, sua voz transmitia um discreto alívio.

Mas ele desaparecia quase imediatamente.

— Só que dura muito pouco.

— Depois começa tudo de novo.

Naquele momento, tornou-se evidente um mecanismo que aprisiona tantas pessoas durante anos.

Obsessão

Ansiedade

Compulsão

Alívio temporário

O ciclo recomeça

Esse breve alívio convence o cérebro de que aquele comportamento realmente funciona.

Sem perceber, a própria tentativa de aliviar o sofrimento fortalece exatamente o ciclo do qual a pessoa tenta escapar.

Pouco a pouco, o intervalo entre uma crise e outra diminui.

Primeiro dias.
Depois horas.
Às vezes, apenas alguns minutos.

Até que a vida inteira passa a ser organizada em torno daquele sofrimento.

Ele começou a evitar filas.

Depois corredores estreitos.

Parou de usar elevadores sempre que podia.

Deixou de frequentar festas.

Abraços passaram a ser motivo de preocupação.

Cumprimentar alguém transformou-se em um exercício permanente de vigilância.

Não porque tivesse medo das pessoas.

Mas porque tinha medo de si mesmo.

Esse talvez fosse o aspecto mais cruel de toda aquela história.

Ele não desconfiava das intenções dos outros.

Desconfiava das próprias.

Passou a acreditar que talvez fosse uma pessoa ruim.

Que escondesse algum desejo que nunca tivera coragem de admitir.

Que estivesse, aos poucos, perdendo o controle da própria mente.

Quando terminou de falar, fez uma pergunta que, provavelmente, ensaiara inúmeras vezes antes daquela consulta.

— Doutor...

— O senhor acha que eu sou uma pessoa perversa?

O consultório permaneceu em silêncio.

Até hoje, aquela pergunta nunca saiu da minha memória.

Não porque fosse rara.

Mas porque resume um dos aspectos mais cruéis do Transtorno Obsessivo-Compulsivo.

Muitas pessoas acreditam que o sofrimento do TOC está apenas nas compulsões.

Nas lavagens repetidas.
Nas verificações.
Na organização.

Dentro do consultório, porém, aprendi que existe um sofrimento ainda maior.

O medo de acreditar que aqueles pensamentos revelam quem a pessoa realmente é.

Talvez seja justamente por isso que tantas pessoas demorem anos para procurar ajuda.

Não porque lhes falte sofrimento.
Mas porque lhes sobra culpa.

Muitas escondem os sintomas até mesmo da própria família.

Outras procuram respostas na internet e encontram explicações que aumentam ainda mais o medo.

Algumas têm receio de contar a um médico.

Outras têm receio de contar a um líder religioso.

E há quem jamais conte a ninguém.

Não porque deseje aqueles pensamentos.

Mas porque acredita que, se alguém os conhecer, concluirá que eles revelam sua verdadeira natureza.

Olhei para ele e respondi com tranquilidade.

— Não.

Ele levantou lentamente a cabeça.

Percebi seus ombros relaxarem pela primeira vez desde que entrara na sala.

Então continuei:

— O fato de esses pensamentos lhe causarem tanto sofrimento já diz muita coisa.

— Pessoas que realmente desejam machucar alguém ou que sentem prazer em determinados comportamentos não passam anos tentando lutar contra eles.

Não chegam ao consultório envergonhadas.

Não adoecem por causa desses pensamentos.

Ele permaneceu em silêncio.

Era como se estivesse ouvindo, pela primeira vez, uma explicação capaz de dar sentido ao sofrimento que carregava havia tantos anos.

Então acrescentei:

— O problema não é quem você é.

— O problema é que sua mente começou a produzir pensamentos que você nunca escolheu ter.

Ele respirou profundamente.

Pela primeira vez desde que entrou na sala, pareceu haver espaço para um sentimento que até então não existia.

Esperança.

Naquele momento, expliquei que aquilo tinha um nome.

Transtorno Obsessivo-Compulsivo.
TOC.

Muitas pessoas imaginam que esse transtorno se resume à necessidade de lavar as mãos inúmeras vezes ou manter objetos perfeitamente organizados.

Essas manifestações realmente podem acontecer.

Mas representam apenas uma pequena parte da doença.

O verdadeiro núcleo do TOC não está na limpeza.

Nem na organização.

Está na prisão criada entre um pensamento que invade a mente sem ser convidado e a necessidade quase irresistível de fazer alguma coisa para aliviar a ansiedade que ele provoca.

Na psiquiatria, chamamos esses pensamentos de obsessões.

As tentativas de aliviar essa angústia recebem o nome de compulsões.

Na psiquiatria, chamamos esses pensamentos de obsessões.

As tentativas de aliviar essa angústia recebem o nome de compulsões.

Naquele momento, ele descobria algo que muitas pessoas só percebem depois de anos de sofrimento. Não estava sozinho.

Ao longo dos anos, conheci muitas pessoas aprisionadas por pensamentos completamente diferentes entre si.

Uma mãe evitava segurar o próprio filho recém-nascido porque era invadida, repetidamente, pela imagem de deixá-lo cair da escada.

Também acompanhei pacientes atormentados por pensamentos de conteúdo sexual, religioso ou violento, sempre incompatíveis com seus valores e com a forma como viviam.

Outros verificavam portas inúmeras vezes.

Alguns lavavam as mãos repetidamente.

Havia quem contasse números em silêncio.

Quem repetisse frases mentalmente.

À primeira vista, essas histórias parecem muito diferentes.

Mas todas obedecem exatamente ao mesmo mecanismo.

Obsessão

Ansiedade

Compulsão

Alívio temporário

O ciclo recomeça

A compulsão produz um breve alívio.

E é justamente esse alívio que convence o cérebro de que repetir aquele comportamento parece ser a única maneira de escapar da ansiedade.

Sem perceber, a própria tentativa de aliviar o sofrimento fortalece o ciclo que mantém a doença.

Obsessão

Ansiedade

Compulsão

Alívio temporário

O ciclo recomeça

A compulsão produz um breve alívio.

E é justamente esse alívio que convence o cérebro de que repetir aquele comportamento parece ser a única maneira de escapar da ansiedade.

Sem perceber, a própria tentativa de aliviar o sofrimento fortalece o ciclo que mantém a doença.

Ele ouviu tudo em silêncio.

Quando terminei de explicar, perguntou:

— Então... eu não sou o único?

Sorri discretamente.

— Muito longe disso.

Nenhum daqueles pacientes desejava aqueles pensamentos.

Nenhum deles sentia prazer.

Pelo contrário.

O sofrimento existia justamente porque aqueles pensamentos contrariavam quem eles eram.

Talvez essa seja uma das características mais cruéis do Transtorno Obsessivo-Compulsivo.

A mente parece produzir exatamente aquilo que a pessoa menos gostaria de pensar.

E, quanto mais importante aquele valor é para ela, maior costuma ser a culpa quando um pensamento intrusivo aparece.

Foi então que ele comentou, quase como quem fazia uma confissão.

— Eu passei anos tentando não pensar nisso.

Assenti.

Era compreensível.

Quando um pensamento nos assusta, nossa reação natural é tentar expulsá-lo da mente.

Mas existe um paradoxo.

Quanto mais tentamos controlar determinados pensamentos, mais atenção acabamos dando a eles.

E, muitas vezes, é justamente essa tentativa desesperada de controle que faz com que eles retornem ainda mais fortes.

Era exatamente isso que havia acontecido com aquele homem.

Durante anos, tentou expulsar aqueles pensamentos.

Lutou contra eles.

Escondeu-os.

Sentiu vergonha deles.

Passou a desprezar a si mesmo por causa deles.

E, sem perceber, alimentava justamente o mecanismo que mantinha seu sofrimento.

Pouco a pouco, aqueles pensamentos deixaram de ser apenas incômodos.

Passaram a organizar sua rotina.

Mudou caminhos.
Evitou lugares.
Cancelou encontros.

Criou estratégias para não se aproximar das pessoas.

Sua vida foi ficando cada vez menor.

Não porque o mundo tivesse mudado.

Mas porque o medo passou a decidir por onde ele podia caminhar.

É por isso que tantas pessoas chegam ao consultório completamente exaustas.

Não estão cansadas apenas das compulsões.

Estão cansadas de vigiar a própria mente o tempo todo.

De lutar contra pensamentos que nunca escolheram ter.

E, principalmente, de acreditar que esses pensamentos dizem alguma coisa sobre quem realmente são.

Naquele dia, antes mesmo de conversarmos sobre medicamentos ou psicoterapia, havia algo muito mais importante para aquele paciente ouvir.

Olhei para ele e disse:

— Você não é os seus pensamentos.

Ele permaneceu em silêncio.

Respirou profundamente.

Foi um daqueles silêncios que dizem muito mais do que qualquer resposta.

Talvez fosse a primeira vez, em muitos anos, que alguém conseguia separar sua identidade da doença.

A consulta continuou.

Conversamos sobre o tratamento.

Expliquei que o Transtorno Obsessivo-Compulsivo é uma condição conhecida pela psiquiatria há muitos anos e que, felizmente, existem tratamentos capazes de reduzir de forma significativa o sofrimento provocado pelo transtorno.

Falamos sobre medicamentos.

Sobre psicoterapia.

E sobre recuperar, pouco a pouco, a liberdade que aquele ciclo havia lhe roubado.

Mas, quando me recordo daquela consulta, não são essas orientações que primeiro me vêm à memória.

O que permanece vivo é a pergunta que ele fez antes mesmo de saber qual era o diagnóstico.

"Doutor... o senhor acha que eu sou uma pessoa perversa?"

Hoje, sempre que ouço alguém dizer, de maneira despreocupada, que tem "TOC" porque gosta da mesa organizada ou das roupas perfeitamente alinhadas no armário, lembro-me daquele homem.

Lembro-me da vergonha que carregava.

Do medo de ser julgado.

Dos lugares que deixou de frequentar.

Da culpa que o acompanhava todos os dias.

E percebo como esse transtorno ainda continua sendo profundamente mal compreendido.

Costumamos pensar que o Transtorno Obsessivo-Compulsivo aprisiona as pessoas por causa das compulsões.

Mas, dentro do consultório, aprendi que existe algo ainda mais cruel.

O Transtorno Obsessivo-Compulsivo tenta convencer pessoas boas de que existe algo profundamente errado dentro delas.

Faz com que um pensamento involuntário pareça uma intenção.

Que uma ideia intrusiva pareça uma escolha.

Que um sintoma pareça um defeito de caráter.

Mas pensamentos não são intenções.

Não são desejos.

Não são confissões.

São apenas pensamentos.

Talvez uma das primeiras etapas do tratamento não seja apenas reduzir a ansiedade ou diminuir as compulsões.

Talvez seja devolver ao paciente algo que a doença lhe roubou muito antes do diagnóstico.

Porque, às vezes, o tratamento começa no dia em que alguém finalmente descobre que nunca foi a pessoa que a doença tentou convencê-lo de ser.

Que nenhum pensamento involuntário tem o poder de definir quem você é.

HISTÓRIAS DO CONSULTÓRIO

Esta narrativa faz parte da coleção Histórias do Consultório, um conjunto de histórias inspiradas em situações observadas ao longo da prática clínica. Mais do que relatar casos, a proposta desta série é aproximar o leitor da experiência humana por trás dos transtornos mentais, mostrando como eles podem modificar pensamentos, emoções, comportamentos e relações muito antes de receberem um nome.

NOTA EDITORIAL

Embora inspirada em situações observadas ao longo da prática clínica, esta narrativa não corresponde à reprodução literal de um único atendimento. Personagens, diálogos, circunstâncias e detalhes foram modificados, combinados ou reconstruídos para preservar integralmente a identidade, a privacidade e o sigilo dos pacientes.

Dr. Luciano Cherubini
Médico Psiquiatra
CRM-SP 96061 • RQE 118809

Continue lendo

Cada história desta coleção apresenta uma forma diferente pela qual o sofrimento psíquico pode se manifestar no cotidiano. Explore outras narrativas e descubra como diferentes transtornos podem transformar a maneira de sentir, pensar, perceber a realidade e se relacionar com o mundo.

Coleção Editorial

Histórias do Consultório

Histórias do Consultório reúne narrativas inspiradas em situações observadas ao longo da prática clínica. Cada história parte de uma experiência diferente para mostrar como os transtornos mentais podem se manifestar muito além dos sintomas que costumamos reconhecer.

Conhecer toda a coleção →

Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem

Formulário de contato