É só uma fase ruim — quando essa frase ajuda… e quando atrasa o cuidado.

Pessoa diante de um caminho entre uma paisagem escura e outra iluminada, representando a diferença entre atravessar uma fase difícil e permanecer preso ao sofrimento.
Nem toda fase difícil significa adoecimento. Mas, quando o sofrimento persiste e começa a comprometer a vida, merece ser observado com mais atenção.

“Doutor, acho que é só uma fase ruim.”

Já ouvi essa frase muitas vezes no consultório.

Às vezes, quem diz isso está tentando me explicar o que sente.

Outras vezes, está tentando explicar para si mesmo.

Mas essa frase nem sempre vem de quem está sofrendo.

Ela também pode vir de alguém próximo.

“É só uma fase.”

“Daqui a pouco passa.”

“Você precisa parar de pensar nisso.”

Muitas vezes essas frases são ditas com a intenção de tranquilizar. O problema é que, em algumas situações, aquilo que parece consolo pode acabar funcionando como uma forma de minimizar um sofrimento que já deveria estar sendo observado com mais atenção.

E eu entendo por que é tão tentador pensar dessa maneira.

Existe algum conforto em imaginar que aquilo que estamos vivendo tem começo, meio e fim.

Uma fase passa.

Uma fase não define uma vida inteira.

Uma fase permite olhar para uma semana difícil, para uma perda, para uma separação, para problemas no trabalho ou para um período de ansiedade e pensar:

“Eu não vou ficar assim para sempre.”

E isso pode ser saudável.

O problema é que existe uma pergunta que quase sempre vem à minha cabeça quando escuto essa frase:

E se não estiver passando?

Porque algumas fases nós atravessamos. Outras, quase sem perceber, começam a nos prender.

E talvez uma das coisas mais difíceis seja perceber quando uma coisa começou a se transformar na outra.

Nem todo sofrimento é uma doença

Talvez seja importante começar por aqui.

Nem toda tristeza é depressão.

Nem toda ansiedade é um transtorno de ansiedade.

Nem toda noite mal dormida significa insônia crônica.

Nem todo período de desânimo precisa de medicamento, psicoterapia ou diagnóstico.

Às vezes, na vida, nos sentimos machucados.

Perdemos pessoas. Relacionamentos podem não dar certo. Planos podem não acontecer como imaginávamos.

Podemos adoecer, enfrentar dificuldades financeiras, nos decepcionar com alguém ou atravessar conflitos dentro da própria família.

E existem períodos em que várias dessas coisas parecem acontecer ao mesmo tempo.

Tudo isso pode nos entristecer, angustiar, preocupar ou simplesmente nos deixar emocionalmente abalados.

E seria um erro transformar toda reação humana diante dessas experiências em doença.

Imagine alguém atravessando uma tempestade.

Está chovendo. O vento está forte. A pessoa está molhada, desconfortável, talvez assustada.

Isso não significa que exista alguma coisa errada com ela.

Existe uma tempestade acontecendo.

Em muitos momentos da vida, o sofrimento funciona assim.

Existe uma circunstância acontecendo e nossa mente está reagindo a ela. Isso não significa, por si só, que exista um transtorno mental.

Mas também seria um erro concluir que todo sofrimento emocional pode ser explicado apenas pelas circunstâncias da vida.

Depressão, transtornos de ansiedade e outros quadros psiquiátricos existem, podem surgir em contextos muito diferentes e nem sempre dependem de um acontecimento externo que explique tudo aquilo que a pessoa está sentindo.

Por isso, o problema não é sentir.

Em determinadas situações, seria estranho não sentir.

A questão é perceber quando aquela reação esperada começa a adquirir outra característica: permanece, se intensifica, começa a se tornar difícil de compreender apenas pelo que aconteceu ou passa a comprometer diferentes áreas da vida.

É aí que talvez já não seja suficiente dizer:

“É só uma fase ruim.”

A pergunta importante é outra:

A tempestade está passando ou você está começando a viver permanentemente debaixo dela?

Uma fase tem movimento

Quando penso clinicamente em uma “fase ruim”, uma das coisas que observo é movimento.

Isso não significa que a pessoa esteja bem. Ela pode chorar, ficar angustiada, acordar alguns dias sem vontade de fazer nada ou pensar repetidamente no que aconteceu.

Mas alguma coisa ainda se movimenta.

Há dias um pouco melhores. Existem momentos em que ela consegue se distrair, uma conversa ainda consegue fazê-la rir e, mesmo com mais esforço, ela continua trabalhando.

Ainda faz planos. Ainda consegue imaginar que aquilo poderá ser diferente daqui a algum tempo.

E movimento não significa melhorar um pouco a cada dia.

Quem está atravessando uma fase difícil também pode ter dias muito ruins. Pode acreditar que estava melhorando e, de repente, voltar a chorar. Pode passar alguns dias bem e acordar no seguinte com a impressão de ter voltado ao começo.

Mas nem sempre voltou.

O sofrimento emocional raramente melhora em linha reta.

O que importa é perceber se, apesar das oscilações, alguma coisa está se modificando ao longo do caminho.

É como atravessar um túnel.

Você pode estar no escuro.

Pode não saber quanto ainda falta para chegar ao outro lado.

Pode até não enxergar a saída naquele momento.

Mas continua caminhando.

O sofrimento começa a adquirir outra característica quando a pessoa deixa de caminhar e passa a andar em círculos dentro do túnel.

Os mesmos pensamentos.

Os mesmos medos.

As mesmas preocupações que parecem não encontrar saída.

Os dias passam, mas, por dentro, existe a sensação de continuar exatamente no mesmo lugar.

É aí que a frase “é só uma fase” merece ser examinada com mais cuidado.

Porque o calendário pode continuar andando enquanto, na vida daquela pessoa, quase nada parece sair do lugar.

O tempo, sozinho, não responde

Existe uma tendência compreensível de tentar medir sofrimento pelo relógio.

“Faz quanto tempo?”

É uma pergunta importante.

Mas não é suficiente.

Duas pessoas podem atravessar um período particularmente difícil e, algumas semanas depois, estar vivendo situações muito diferentes.

As duas sofreram. As duas tiveram dias ruins, sentiram-se mais preocupadas, desanimadas ou emocionalmente abaladas.

Uma delas ainda não está bem. Há dias em que acorda pior, pensa muito no que aconteceu ou sente que tudo exige mais esforço do que antes.

Mas continua trabalhando, encontra pessoas e, aos poucos, começa a reorganizar a rotina. Em alguns momentos consegue se envolver com outras coisas, voltar a se interessar pelo que acontece ao seu redor e até fazer planos novamente.

No dia seguinte pode voltar a ficar mal.

Mas alguma coisa já começou a se mover.

A outra pessoa também começou sofrendo. Mas as semanas passam e seu mundo começa a diminuir.

Ela deixa de sair, se afasta das pessoas e perde o interesse por coisas que antes faziam parte de sua vida. O sono muda, a energia desaparece e até tarefas que antes eram simples começam a exigir um esforço enorme.

Os planos vão sendo abandonados.

As duas atravessaram um período difícil.

As duas estão sofrendo.

Mas o sofrimento não está fazendo a mesma coisa com a vida das duas.

É por isso que, no consultório, eu não olho apenas para há quanto tempo uma pessoa está assim.

Eu quero saber o que aconteceu com a vida dela enquanto esse tempo passou.

Porque sofrimento emocional não deve ser avaliado apenas pela duração.

Deve ser observado também pela intensidade, pela trajetória e pelo impacto sobre o funcionamento.

Pessoa diante de um caminho em uma paisagem entre áreas escuras e iluminadas, simbolizando a trajetória entre uma fase difícil e um sofrimento que começa a comprometer a vida.
Mais importante do que observar apenas quanto tempo passou é perceber o que aconteceu com a vida durante esse caminho.

Quando a vida começa a encolher

Existe uma imagem que considero útil.

Imagine que sua vida seja uma casa com vários cômodos.

Em um deles está o trabalho. Em outros, a família, os amigos, os relacionamentos, aquilo que você faz por prazer, os projetos que ainda pretende realizar.

Há também o espaço que você reserva para cuidar de si mesmo.

Quando atravessamos um período difícil, é natural que alguns desses cômodos fiquem bagunçados. Talvez você durma pior, produza menos, fique mais irritado ou recuse um convite que, em outro momento, teria aceitado.

Isso faz parte.

Afinal, não seria razoável esperar que alguém atravesse um momento difícil e continue vivendo exatamente da mesma maneira.

Mas, aos poucos, alguma coisa tende a voltar para o lugar.

Quando o sofrimento persiste e começa a comprometer diferentes áreas da vida, pode acontecer o contrário.

A pessoa começa a fechar os cômodos.

Primeiro deixa de sair.

Depois perde o interesse pelas coisas de que gostava.

Começa a evitar pessoas.

O trabalho passa a ser apenas algo que precisa sobreviver até o final do dia.

Os planos são abandonados.

O mundo vai ficando menor.

Até que, sem perceber exatamente quando aconteceu, a pessoa está vivendo em apenas um pequeno espaço daquela casa.

E existe algo ainda mais silencioso nesse processo: podemos nos acostumar com isso.

Depois de algum tempo, a pessoa já nem percebe quantas portas deixou de abrir.

É uma imagem metafórica, claro.

Mas clinicamente existe algo muito importante aí:

quando o sofrimento começa a ocupar espaços que antes pertenciam à vida, precisamos prestar atenção.

“Mas eu deveria conseguir sozinho”

Existe ainda outra razão pela qual a frase “é só uma fase” pode se tornar perigosa.

Ela às vezes vem acompanhada de outra:

“Eu deveria conseguir sair disso sozinho.”

Essa palavra — deveria — pesa muito.

A pessoa olha para os outros trabalhando, viajando, sorrindo, vivendo suas rotinas e começa a concluir que existe alguma falha pessoal nela.

“Todo mundo tem problemas.”

“Tem gente passando por coisa pior.”

“Preciso parar de reclamar.”

“Tenho uma vida boa, não deveria estar assim.”

E então acontece algo curioso.

Além de sofrer, a pessoa começa a se julgar por estar sofrendo.

E isso acontece muito quando a pessoa olha para a própria vida e não encontra uma razão que considere suficiente para estar mal.

Ela olha para o casamento, para o trabalho, para a família e pensa:

“Minha vida está bem. Então por que eu estou assim?”

E, quando ela não encontra uma explicação do lado de fora, pode começar a procurar o problema dentro de si.

“Talvez eu seja fraco.”

“Talvez esteja reclamando demais.”

“Talvez me falte força de vontade.”

Perceba o que aconteceu.

O sofrimento, que já era difícil, ganhou uma segunda camada.

Agora a pessoa não está apenas sofrendo.

Ela começou a interpretar o próprio sofrimento como uma falha pessoal.

Isso não ajuda.

Também não significa que todo sofrimento precise de tratamento.

Significa apenas que resistência não deve ser confundida com negação.

Existe força em atravessar momentos difíceis.

Mas não existe mérito especial em permanecer sofrendo apenas para provar que consegue suportar.

Então como saber se ainda é “uma fase”?

Não existe uma régua perfeita.

Não há um único sintoma, um número de dias ou uma resposta que consiga, por si só, separar uma fase difícil de um sofrimento que merece avaliação.

O que importa é olhar para o conjunto.

E algumas perguntas podem ajudar a perceber o que está acontecendo:

Existe movimento ou tudo parece estar se repetindo?

Há momentos em que você consegue sair emocionalmente desse estado ou ele passou a ocupar praticamente o dia inteiro?

Você continua conseguindo trabalhar, estudar, se relacionar e cuidar de si?

As coisas que antes tinham significado continuam tendo algum significado?

Seu mundo continua do mesmo tamanho ou está ficando cada vez menor?

Talvez essa última pergunta seja uma das mais importantes porque, muitas vezes, o adoecimento psicológico não chega fazendo barulho.

Ele chega retirando coisas.

Primeiro uma atividade.

Depois um encontro, um interesse, alguma coisa que antes dava prazer.

Até que começam a desaparecer também os projetos, os planos e, pouco a pouco, a própria esperança de que alguma coisa possa mudar.

E quando olhamos apenas para o sofrimento, podemos não perceber tudo aquilo que ele já levou junto.

A pergunta talvez não seja “isso vai passar?”

Quase todo mundo que está sofrendo gostaria de saber quando aquilo vai terminar.

É compreensível.

Mas talvez exista uma pergunta anterior.

Não apenas:

“Isso é só uma fase?”

Mas:

“O que esta fase está fazendo com a minha vida?”

Porque fases ruins podem existir e fazer parte da experiência humana.

Algumas precisam apenas de tempo. Outras exigem mudanças, apoio ou, em determinados momentos, até mesmo tratamento.

O desafio está justamente em não cometer nenhum dos dois erros: transformar toda dor humana em doença ou continuar chamando de “fase” aquilo que, há algum tempo, deixou de estar passando.

Porque, quando isso acontece, a frase que antes servia para tranquilizar pode começar a ter outro efeito: postergar a procura por ajuda e atrasar um tratamento que talvez seja necessário.

Talvez por isso eu preste tanta atenção quando alguém me diz no consultório:

“Doutor, acho que é só uma fase ruim.”

Pode ser.

Mas eu não quero saber apenas há quanto tempo ela começou.

Quero saber o que aconteceu com a vida daquela pessoa enquanto os dias passaram.

Se ela continuou vivendo, ainda que com dificuldades, ou se, pouco a pouco, a vida também começou a parar.

Se ainda existem espaços preservados.

Se aquela pessoa continua caminhando, mesmo devagar.

Porque uma fase ruim não precisa ser uma caminhada tranquila. Pode haver dias péssimos no meio dela, tropeços, paradas e até a sensação de estar voltando.

Mas ainda existe caminho.

O que merece atenção é quando apenas o calendário continua andando.

E a vida, pouco a pouco, vai ficando parada.

Dr. Luciano Cherubini

Médico Psiquiatra

Se um sofrimento emocional persiste, se intensifica ou começa a comprometer diferentes áreas da vida, uma avaliação profissional pode ajudar a compreender o que está acontecendo e quais formas de cuidado podem ser adequadas para cada situação.

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