Uma reflexão clínica a partir do filme Cherry (Cherry: Inocência Perdida)
O cinema costuma retratar dependência química de forma intensa, dramática, muitas vezes espetacularizada. Há exageros, quedas abruptas, personagens que parecem destinados ao excesso desde o início.
Cherry segue outro caminho.
O filme acompanha a trajetória de um jovem que, à primeira vista, não parece carregar nada de extraordinário. Ele ama, trabalha, faz planos, tenta se encaixar no mundo como tantos outros. Não há, no início, sinais evidentes de colapso.
E talvez seja justamente isso que torna a narrativa desconfortável.
Porque o que vemos não é a história de alguém “perdido desde sempre”. É o percurso de alguém que, em determinado momento, atravessa uma experiência que não consegue integrar — e passa a viver com algo que não encontra nome, nem linguagem.
Cherry não é apenas um filme sobre drogas. É uma história sobre trauma, anestesia emocional e a dificuldade de retornar a si depois que algo se rompe por dentro.
Resumo do filme (sem spoilers)
Cherry acompanha um jovem que, após uma desilusão afetiva, decide se alistar no exército. Ele retorna da guerra profundamente marcado pelas experiências vividas em combate. De volta à vida civil, enfrenta insônia, ansiedade persistente, irritabilidade e um mal-estar constante que parece não encontrar explicação clara.
Gradualmente, passa a recorrer a substâncias como forma de lidar com essa tensão interna. O que começa como tentativa de aliviar a dor transforma-se, pouco a pouco, em um ciclo cada vez mais difícil de interromper.
Para preservar a experiência de quem ainda não assistiu, não entrarei em detalhes sobre o desfecho. O que importa aqui não é a surpresa narrativa, mas o processo psíquico que o filme expõe.
Antes mesmo da guerra, há uma fratura mais silenciosa.
A desilusão amorosa que antecede o alistamento não é apenas um episódio romântico. Ela representa uma ruptura de referência, de projeto, de pertencimento. Em muitos jovens adultos, vínculos afetivos funcionam como eixo organizador da identidade. Quando esse eixo se rompe, instala-se uma sensação difusa de desorientação.
Decisões tomadas nesse contexto nem sempre nascem de clareza. Às vezes nascem de deslocamento.
No filme, o alistamento ocorre nesse momento de vulnerabilidade. A guerra, portanto, não começa em um psiquismo neutro. Começa em alguém que já estava emocionalmente abalado.
Trauma: quando o corpo retorna, mas a mente permanece em combate
Do ponto de vista clínico, o que o filme ilustra não começa na substância. Começa antes.
Trauma psicológico não é apenas o que aconteceu. É o que aconteceu e não pôde ser simbolizado, elaborado ou amparado.
No caso retratado em Cherry, a experiência de guerra representa um ponto de inflexão claro. A exposição prolongada à ameaça real, à imprevisibilidade e à possibilidade constante de morte não se encerra automaticamente quando o conflito termina.
Tecnicamente, o quadro apresentado no filme é compatível com o que conhecemos como Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).
O TEPT não se resume a memórias desagradáveis. Ele envolve alterações persistentes após a vivência de um evento traumático, como:
- memórias intrusivas e revivescências involuntárias;
- pesadelos recorrentes;
- evitação de situações ou lembranças associadas ao trauma;
- estado de alerta constante (hipervigilância);
- irritabilidade e dificuldade de concentração;
- sensação persistente de ameaça, mesmo em ambientes seguros.
Não se trata de fragilidade emocional. Trata-se de um sistema nervoso que permanece ativado como se o perigo ainda estivesse presente.
Quando esse estado se prolonga, a pessoa não busca prazer. Busca silêncio.
E quando o silêncio não vem espontaneamente, ele passa a ser procurado.
É nesse ponto que Cherry se torna particularmente relevante.
A droga como tentativa de regulação emocional
Na prática clínica, muitas histórias de dependência não começam na busca por euforia. Começam na tentativa de diminuir uma dor que parece constante demais.
Substâncias como opioides produzem inicialmente algo que muitos descrevem como “alívio” ou “descanso”. Não é exatamente felicidade. É redução de tensão.
Para alguém que vive em estado de alerta prolongado, essa redução pode ser percebida quase como reencontro com um estado que deveria ser natural: ausência de ameaça.
O problema é que o alívio químico não resolve a origem do mal-estar. Ele apenas suspende temporariamente seus sinais.
Com o tempo, o organismo se adapta. A mesma dose já não produz o mesmo efeito. O intervalo entre tensão e uso se encurta. Surge, então, o ciclo:
Sofrimento → uso → alívio temporário → culpa → intensificação da dor → novo uso.
Não se trata de falta de caráter. Trata-se de uma tentativa de regulação emocional que, progressivamente, saiu do controle.
Cherry ilustra esse processo sem estridência. Não há um único momento de ruptura. Há um deslizamento gradual.
E talvez seja esse o aspecto mais inquietante do filme.
Porque a erosão da identidade raramente acontece de uma vez.
Ela acontece aos poucos.
Quando o sofrimento deixa de ser episódio e passa a organizar a identidade
Há um ponto na trajetória retratada em Cherry em que a questão já não é apenas o uso de substâncias.
O que começa a se modificar é algo mais estrutural.
No início, a dor é uma experiência. Depois, passa a ser um estado frequente. Com o tempo, torna-se referência interna. E, em estágios mais avançados, transforma-se em eixo organizador da vida.
Essa transição é silenciosa.
Rotinas se reorganizam em função da substância. Relações passam a girar em torno da manutenção do uso. Decisões deixam de ser orientadas por projetos e passam a ser orientadas por urgências.
Gradualmente, o horizonte se estreita.
Na clínica, isso se torna perceptível quando a dor deixa de aparecer como algo que a pessoa tem e passa a aparecer como algo que ela é. Muitas vezes, o paciente já não fala de planos futuros nem de projetos interrompidos. Fala apenas de como atravessar o dia. A conversa deixa de girar em torno de escolhas e passa a girar em torno de sobrevivência.
É nesse ponto que falamos em erosão da identidade.
Não porque a essência da pessoa tenha desaparecido, mas porque ela fica soterrada por estratégias de sobrevivência que se tornaram predominantes.
Quanto mais a dor é anestesiada quimicamente, menos ela encontra espaço para ser elaborada simbolicamente.
A substância pode reduzir a intensidade do mal-estar por algumas horas. Mas não devolve sentido, não reorganiza memória, não integra experiências traumáticas. Muitas vezes, interrompe o processo de elaboração que seria necessário para que o trauma deixasse de ocupar o centro da vida psíquica.
O filme não acusa nem romantiza. Ele expõe um mecanismo humano: quando a dor é grande demais e não encontra linguagem, a mente tenta soluções disponíveis.
Algumas funcionam no curto prazo.
Mas cobram um preço no longo prazo.
Culpa, vergonha e o ciclo que se fecha
Se o trauma é o ponto de partida e a substância surge como tentativa de regulação, há outro elemento que sustenta o ciclo: a culpa.
Depois do alívio inicial, surgem as consequências. Decisões precipitadas, promessas não cumpridas, perdas financeiras, conflitos afetivos. A consciência dessas consequências não desaparece.
Ela pesa.
E quando a culpa se torna persistente, frequentemente evolui para algo ainda mais corrosivo: vergonha.
Essa diferença é decisiva.
Em estágios mais avançados da dependência, a dor já não está apenas na abstinência ou no trauma inicial. Ela passa a estar na percepção de falha constante. A pessoa começa a se ver como alguém irremediavelmente comprometido.
Isso intensifica o isolamento.
O isolamento aumenta a tensão interna.
E a tensão reacende a necessidade de anestesia.
O ciclo se retroalimenta.
Interrompê-lo não exige apenas tratar a dependência. Exige reconstruir a possibilidade de alguém se enxergar para além do erro.
Sem essa reconstrução, o risco de recaída aumenta — não por falta de força, mas por falta de identidade alternativa disponível.
Quando a dor não encontra linguagem
Cherry não é apenas sobre dependência. É sobre o que acontece quando uma experiência atravessa alguém de forma intensa demais e não encontra espaço para ser compreendida.
Quando a dor não é simbolizada, ela não desaparece. Ela se desloca.
Pode se manifestar como irritabilidade constante.
Como insônia persistente.
Como necessidade de silenciar pensamentos.
Ou como busca repetida por algo que alivie, ainda que por pouco tempo.
O que o filme ilustra é um mecanismo humano, não um desvio moral.
A mente tenta sobreviver.
O problema é que nem toda estratégia de sobrevivência preserva a possibilidade de viver com integração e presença.
Na prática clínica, muitas histórias não começam com “eu quero usar”. Começam com “eu não estou conseguindo suportar”.
Entre suportar e silenciar existe uma diferença importante.
Mas elaborar exige tempo, escuta e, muitas vezes, ajuda profissional.
Cherry nos confronta com uma pergunta que ultrapassa a narrativa do personagem:
O que acontece quando a dor não encontra linguagem?
Quando a dor encontra linguagem, ela deixa de precisar de atalhos.
Quando procurar ajuda profissional
Filmes podem abrir reflexões importantes. Mas não substituem avaliação ou acompanhamento clínico.
É indicado buscar ajuda quando:
- o mal-estar emocional se torna persistente;
- memórias traumáticas retornam de forma involuntária ou perturbadora;
- há dificuldade constante para dormir ou relaxar;
- o uso de substâncias deixa de ser eventual e passa a organizar a rotina;
- culpa e vergonha começam a definir a percepção de si mesmo;
- o funcionamento no trabalho, nos estudos ou nos relacionamentos é prejudicado.
Buscar apoio não é sinal de fraqueza. É cuidado.
Nem toda dor precisa ser enfrentada sozinha.
E nem toda estratégia de sobrevivência precisa se tornar destino.