Quando voltar-se para dentro se torna um ato de saúde mental
Vivemos em uma era em que o barulho externo se tornou a norma. São vozes, notificações, opiniões, comparações e expectativas que nos cercam o tempo todo — ditando como devemos viver, o que devemos conquistar e até o que devemos sentir.
A mente moderna, constantemente estimulada, raramente encontra um espaço de silêncio. E, sem perceber, vamos nos afastando de algo essencial: de nós mesmos.
Desde cedo, aprendemos a nos moldar ao que o mundo espera de nós. Ser “bem-sucedido”, “produtivo”, “feliz”, “estável” — como se esses conceitos fossem universais e imutáveis. O problema é que, ao tentar atender a todos os padrões externos, nos desconectamos daquilo que é interno, singular e verdadeiro.
Muitos dos sofrimentos que vejo em consultório não nascem de uma doença em si, mas de um desalinhamento entre o que a pessoa é e o que acredita precisar ser. Vivemos tentando caber em moldes que não foram feitos para nós, e isso gera ansiedade, exaustão e sensação de vazio.
O ruído da comparação e a cultura do desempenho
A cultura do desempenho reforça uma ideia perigosa: a de que precisamos estar sempre melhorando, sempre felizes, sempre no controle. Mas saúde mental não é ausência de falhas — é aceitação consciente da própria humanidade.
Quando acreditamos que só seremos dignos de amor ou sucesso ao atingir determinado padrão, entramos em um ciclo de autocrítica e frustração.
As redes sociais intensificam esse fenômeno. Elas mostram fragmentos cuidadosamente editados da vida alheia. Comparar-se com esse recorte é comparar seus bastidores com o palco de outro.
O silêncio como ferramenta terapêutica
O silêncio não é ausência de som. É presença de consciência. Ele é o espaço onde pensamentos se assentam, emoções se revelam e o “eu verdadeiro” pode finalmente respirar.
Muitos temem o silêncio porque ele revela o que foi reprimido: medos, dores, dúvidas. Mas evitar o desconforto é impedir o crescimento.
Em psiquiatria, o autoconhecimento não é apenas uma ferramenta terapêutica — é um ato de prevenção. Ele melhora a regulação emocional, fortalece a autoestima e amplia a capacidade de escolha consciente.
Libertar-se das pressões sociais
Libertar-se das pressões sociais não significa se isolar do mundo, mas redefinir a forma como você se relaciona com ele.
Em vez de perguntar “o que esperam de mim?”, comece a perguntar “o que faz sentido para mim?”. Essa mudança desloca o eixo de poder do externo para o interno.
É nesse ponto que surge o verdadeiro bem-estar — aquele que não depende de conquistas externas, mas da harmonia entre o que se sente, pensa e faz.
O silêncio é o espaço onde a alma se escuta. É nele que nascem a clareza, a autocompaixão e a liberdade emocional.
Em um mundo que te empurra para fora o tempo todo, o maior ato de coragem é voltar-se para dentro.
Dr. Luciano Cherubini Junior
Médico Psiquiatra – Saúde Mental e Comportamento Humano
