Quando o problema não é apenas a contaminação — é a normalização
“Vamos sair e tomar alguma coisa.”
Você viu que há contaminação por metanol em bebidas?
“Ah, então vamos tomar outra coisa.”
Essa conversa aparentemente banal revela algo maior. Mesmo diante de risco concreto, a pergunta não é “será que devemos beber?”, mas “o que podemos beber?”.
A crise do metanol nas bebidas expõe uma realidade desconfortável: o consumo de álcool está profundamente normalizado em nossa cultura.
O álcool como problema de saúde pública
Os dados são objetivos.
Em 2016, o consumo excessivo de álcool foi o sétimo principal fator de risco para morte prematura e incapacidade no mundo.
No mesmo ano, foi o principal fator de risco entre pessoas de 15 a 49 anos.
Aproximadamente 14% das mortes entre 20 e 39 anos foram atribuídas ao álcool.
Em 2019, o álcool foi responsável por mais de 2 milhões de mortes de homens e 374 mil mortes de mulheres globalmente.
No Brasil, cerca de 47,8 mil mortes foram atribuídas ao consumo de álcool em 2019.
Grande parte dessas mortes é prematura.
As causas incluem:
- Acidentes e violência
- Doenças cardiovasculares
- Câncer
- Doenças hepáticas
- Infecções
O álcool está associado a mais de 200 doenças e condições médicas.
Não existe nível totalmente seguro de consumo.
Negação e racionalização
Diante desses números, surgem justificativas conhecidas:
- “Eu só bebo socialmente.”
- “Posso parar quando quiser.”
- “Não é tão ruim quanto dizem.”
- “Tenho tudo sob controle.”
A negação é um dos mecanismos centrais do transtorno por uso de álcool.
Ela pode surgir por vergonha, medo da mudança, dependência emocional ou dificuldade cognitiva decorrente do próprio uso prolongado.
O álcool, além de psicoativo, altera julgamento, impulsividade e percepção de risco.
O impacto na saúde mental
Mesmo em pessoas sem diagnóstico de dependência, o álcool pode agravar ansiedade e depressão.
O que parece aliviar a curto prazo pode piorar a longo prazo.
O etanol está associado a pelo menos sete tipos de câncer, incluindo câncer de intestino e mama.
Independentemente do preço ou qualidade, qualquer bebida alcoólica contém etanol — e o risco começa na primeira dose.
Uma pergunta simples
Se há um grave problema de contaminação nas bebidas, você conseguiria ficar um período sem consumir álcool?
Se a resposta for difícil, talvez valha a pena refletir sobre sua relação com a bebida.
Não se trata de moralismo. Trata-se de saúde.
O consumo de álcool segue como um dos maiores problemas de saúde pública no Brasil e no mundo.
Reavaliar hábitos não é fraqueza — é maturidade.
Dr. Luciano Cherubini Junior
Médico Psiquiatra – Saúde Mental e Comportamento Humano