Quando a mente entra em modo de sobrevivência
Que tal uma dica para hoje? Na Netflix, o thriller psicológico “Até a última gota” (Straw, 2025), dirigido e roteirizado por Tyler Perry.
O filme acompanha Janiyah, mãe solteira que atravessa um dia devastador — financeiro, emocional e existencialmente. O que começa como adversidade cotidiana evolui para um colapso psicológico progressivo.
Mas “Straw” não é apenas suspense. É uma investigação sobre trauma, exaustão e o ponto de ruptura da mente humana.
O peso acumulado
O filme nos lembra de algo essencial: ninguém “quebra” de repente.
O colapso mental costuma ser o resultado de carga acumulada — negligência, pressão constante, ausência de apoio e esgotamento prolongado.
Janiyah vive em modo de sobrevivência 24 horas por dia. Não há espaço para descanso emocional. Não há rede de segurança.
Quando a mente não encontra tempo para processar dor, ela encontra outras formas de sobreviver.
A reviravolta e a dissociação
Quando descobrimos que a filha de Janiyah estava morta desde o início da narrativa, o filme ganha nova dimensão.
O que parecia realidade era dissociação.
Ela não conseguia processar a perda. A mente construiu uma narrativa alternativa para sobreviver ao trauma.
Esse mecanismo não é ficção. Em situações extremas, o cérebro pode ativar respostas dissociativas — amnésia, desrealização, entorpecimento emocional.
É o mesmo sistema biológico da resposta de luta, fuga ou congelamento.
Quando lutar ou fugir não são possíveis, o corpo congela. A mente se distancia da realidade para reduzir o impacto da dor.
Por que ela recusava ajuda?
Um elemento central da trama é a recusa de Janiyah em aceitar apoio.
Ela estava disposta a ajudar outros, mas não conseguia receber ajuda.
Essa postura muitas vezes nasce de experiências repetidas de desamparo. Quando alguém internaliza a ideia de que está sozinho, aceitar ajuda passa a parecer fraqueza — ou até ameaça.
O filme nos faz refletir: quantas pessoas vivem acreditando que não merecem apoio?
Resiliência, limites e colapso
Os limites da mente variam conforme:
- Resiliência individual
- Estratégias de enfrentamento
- Histórico de trauma
- Rede de apoio
- Fatores neurobiológicos
Não existe um “ponto universal de ruptura”. Mas estresse crônico sem suporte adequado aumenta significativamente o risco de colapso emocional.
Straw levanta uma pergunta desconfortável:
Vivemos em uma sociedade que cria pessoas fragmentadas?
Reflexão final
Ninguém chega ao limite por acaso.
O colapso é resultado de peso acumulado, invisibilidade emocional e falta de acolhimento.
O filme exige algo de nós: observar melhor quem sempre parece “forte”.
Sobreviver não é o mesmo que estar saudável.
Dr. Luciano Cherubini Junior
Médico Psiquiatra – Saúde mental e comportamento humano