Não importa quantas vezes você fuja — você não pode fugir de si mesmo
Já assistiu à série da Netflix “De quem estamos fugindo?” Se ainda não, vale conferir.
Baseada no romance “De quem estávamos fugindo, mãe?”, da escritora turca Perihan Mağden, a produção mistura paisagens deslumbrantes, hotéis luxuosos e um clima constante de tensão psicológica.
No universo quase fantasioso que mãe (Melisa Sözen) e filha (Eylül Tumbar) constroem, há sempre uma ameaça. Segundo a mãe, existem “pseudo-espíritos”, “multidões malignas”, “pessoas sem alma”. A frase que se repete é: “Eles estão atrás de nós.”
Mas quem são “eles”?
Aos poucos, percebemos que o verdadeiro perseguidor não é externo. É o passado.
Trauma: quando a fuga é interna
Na prisão interior dos traumas do passado, há uma tendência a fugir dos próprios sentimentos. Evita-se o olhar para dentro. Evita-se lembrar. Evita-se sentir.
A mãe carrega marcas profundas de uma infância vivida sob uma figura materna narcisista, crítica e emocionalmente violenta. Cresce sem proteção, sem validação e sem afeto seguro.
Quando engravida, carrega consigo não apenas uma filha — mas também a própria história não resolvida.
O que ela chama de proteção torna-se controle. O que ela chama de amor torna-se aprisionamento.
A filha, Bambi, cresce envolta em roupas infantis, identidade congelada e dependência emocional intensa. A relação entre as duas torna-se quase simbiótica — descrita como uma “unidade lunar”, como se fossem o único lar possível uma da outra.
O vínculo, que deveria proteger, passa a limitar.
Síndrome de Estocolmo emocional
Quando traumas não elaborados moldam a forma de amar, podem surgir laços mórbidos. A dependência se disfarça de cuidado. A fusão emocional substitui autonomia.
A filha questiona em determinado momento:
“Não importa como eu me visto ou como prendo meu cabelo, não posso ser tão pequena quanto você quer que seja.”
Esse é o ponto central da série: o conflito entre crescer e permanecer na prisão emocional construída pelo medo.
Traumas não elaborados não desaparecem. Eles se repetem — muitas vezes nas relações mais íntimas.
Vídeo – Análise da série
De quem realmente fugimos?
Muitas vezes acreditamos que fugimos de pessoas, situações ou ameaças externas. Mas, na prática, fugimos de memórias dolorosas, sentimentos não processados e versões antigas de nós mesmos.
Traumas não resolvidos podem limitar escolhas, distorcer vínculos e criar padrões repetitivos de comportamento.
Quando não olhamos para dentro, o passado continua nos perseguindo — ainda que sob novas formas.
“Se você se atreve a lutar contra monstros, pode se tornar um monstro.” A frase resume o risco de reproduzir aquilo que um dia nos feriu.
A série termina sem oferecer respostas fáceis. E talvez essa seja sua maior força: nos obrigar a perguntar — de quem estamos fugindo?
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Dr. Luciano Cherubini Junior
Médico Psiquiatra – Saúde Mental e Comportamento Humano