"E se isso não for minha culpa?"
Quando você cresce sempre se sentindo "demais" ou "de menos", é fácil pensar que tudo é sua culpa.
Se você passou a vida inteira se sentindo o problema, não está sozinho. Muitas pessoas carregam um profundo sentimento de culpa ou vergonha que não conseguem explicar.
Elas se acham sensíveis demais, dramáticas demais, carentes demais — ou simplesmente "demais". Elas se culpam por cometer erros ou por não conseguirem consertar relacionamentos que nunca pareceram seguros.
Mas aqui vai uma pergunta que vale a pena fazer: e se você não for o problema?
Será que a forma como você aprendeu a se perceber foi influenciada por indivíduos que não conseguiram demonstrar o cuidado necessário para atender suas necessidades emocionais?
A maneira como nos enxergamos é, muitas vezes, um espelho das experiências que vivemos, das palavras que ouvimos e das pessoas que nos cercam.
Quando essas pessoas não souberam nos amar da forma que precisávamos, um vazio pode ser criado, uma lacuna que transforma a maneira como nos percebemos, como nos definimos e como interagimos com o mundo.
O amor, quando genuíno e incondicional, é um dos pilares mais fortes para o desenvolvimento da autoestima e da autocompreensão. Ele nos ensina a reconhecer nosso valor, mesmo diante das imperfeições.
Porém, quando esse amor é distorcido, incompleto ou ausente, pode nos levar a internalizar crenças que não refletem quem somos de verdade, mas sim quem pensávamos ser à luz da rejeição ou do abandono.
E se os aspectos que você considera "falhas" fossem, na verdade, indicadores de sua força, sensibilidade ou capacidade de sobrevivência?
Carregar um fardo de auto culpabilização pode trazer uma série de dificuldades ao longo da vida adulta. Este padrão emocional e psicológico, muitas vezes enraizado em experiências da infância ou adolescência, influencia diretamente nossa percepção de nós mesmos e das nossas interações com o mundo.
Sentimentos de impotência, menos valia, baixa autoconfiança e baixa autoestima são apenas algumas das consequências que podem emergir desse comportamento autodestrutivo.
Onde começa a auto culpa crônica?
A auto culpa crônica geralmente começa na infância. Se você cresceu com um pai ou mãe emocionalmente imaturo, narcisista ou imprevisível, pode ter aprendido a assumir a culpa apenas para sentir algum controle.
Talvez seus pais ignorassem seus sentimentos, ficassem bravos quando você pedia conforto ou fizessem tudo girar em torno deles.
Talvez eles te elogiassem em um minuto e te criticassem no outro.
Nesse tipo de ambiente, as crianças naturalmente começam a acreditar:
"Se eu fosse melhor, mais calmo, mais inteligente, mais quieto — então tudo ficaria bem."
Essa crença pode acompanhá-lo até a idade adulta. Ela pode se manifestar como:
- Pedir desculpas o tempo todo, mesmo quando você não fez nada errado.
- Culpar a si mesmo quando os outros estão chateados.
- Sentir-se responsável pelas emoções de outras pessoas.
- Lutar para confiar em seus sentimentos ou decisões.
- Sentir-se culpado quando estabelece limites ou diz não.
Por que não é sua culpa?
Os filhos não devem atender às necessidades emocionais dos pais. É o contrário.
Mas, se seus pais não conseguiram controlar as próprias emoções, podem ter pressionado você ou feito você se sentir mal por simplesmente ser quem era.
Isso não significa necessariamente que eles não amavam você à sua maneira. Mas significa que suas necessidades podem ter sido ignoradas ou até punidas.
Culpar a si mesmo pode ter ajudado você a sobreviver naquela época. Deu a você uma sensação de controle em um ambiente onde o amor parecia instável ou condicional.
Mas agora, essa culpa não está mais te protegendo — está te mantendo refém.
Reformule sua história
Reformular não significa negar o passado. Significa encará-lo com novos olhos, especialmente para você mesmo quando era mais jovem.
Experimente isto:
Não pergunte: "O que há de errado comigo?"
Pergunte: "O que aconteceu comigo?"
Ao observar seus padrões com atenção, é possível começar a modificar sua narrativa:
- Eu não era muito carente — eu tinha necessidades que não eram atendidas.
- Eu não causei o conflito — eu estava preso em um papel injusto.
- Eu não era difícil — eu estava reagindo a algo doloroso.
Essa mudança não apaga a dor. Mas ajuda você a perceber que grande parte da culpa que carrega não é sua.
O que pode ajudar?
- Perceba a voz da auto culpa.
- Pergunte de quem é essa voz.
- Escreva uma carta para si mesmo quando era mais jovem.
- Pratique estabelecer limites em pequenas atitudes.
- Busque apoio profissional.
Se você passou anos pensando que era o problema, pode parecer estranho considerar que talvez não seja.
Mas você não precisa continuar carregando o peso das feridas dos outros.
A cura começa quando você começa a acreditar: nunca foi uma questão de “eu ser demais”. Foi uma questão de não receber o suficiente.
Dr. Luciano Cherubini Junior
Médico Psiquiatra
CRM 96061 | RQE 118809
Registro – SP | Vale do Ribeira
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