Quando a identidade depende de permanecer ideal
Uma leitura clínica do filme The Substance
O conflito entre versões de si mesma como metáfora de fragmentação identitária.
Hoje a dica é de filme. Para quem ainda não assistiu, The Substance é uma experiência que ultrapassa o entretenimento. E, para quem já viu, talvez valha a pena retornar à história com outro olhar — menos impactado pelas imagens e mais atento ao que o enredo revela sobre o funcionamento psíquico contemporâneo.
Sem entrar em detalhes que comprometam a experiência, o filme acompanha Elizabeth Sparkle, uma mulher cuja trajetória profissional e identidade estiveram profundamente vinculadas à juventude e à imagem pública. Ao completar 50 anos e perder espaço por não corresponder mais aos padrões de beleza esperados, surge a possibilidade de acessar uma versão “melhorada” de si mesma — mais jovem, mais desejável, mais aceita. O que parece inicialmente uma narrativa sobre vaidade rapidamente se revela algo mais estrutural. O que está em jogo não é estética. É identidade.
O corpo nunca é apenas biológico. Ele é simbólico. Comunica pertencimento, valor, reconhecimento. Na prática clínica, é frequente observar que o sofrimento não nasce apenas da mudança física, mas da interpretação que se faz dela. O problema começa quando o corpo deixa de ser expressão do eu e passa a ser o próprio eu. Quando a identidade se apoia quase exclusivamente em atributos externos — juventude, desempenho, relevância — ela se torna estruturalmente frágil, porque esses atributos variam. E variam independentemente da nossa vontade.
Envelhecer é variação. Perder protagonismo é variação. Oscilar emocionalmente é variação. A mudança, por si, não é o problema. O problema surge quando a identidade não tolera a mudança.
Vivemos em uma cultura que associa valor pessoal à performance. Produzir, manter forma, manter visibilidade. A juventude deixa de ser uma fase da vida e passa a funcionar como capital simbólico. Do ponto de vista clínico, isso frequentemente se traduz em ansiedade de obsolescência. Não se trata apenas de medo de envelhecer, mas de medo de deixar de ter valor. Quando o “eu” se organiza em torno de um único traço — beleza, produtividade, reconhecimento — qualquer ameaça a esse traço é vivida como ameaça existencial. Não é “estou envelhecendo”. É “estou deixando de ser alguém”. Esse tipo de organização psíquica produz rigidez. A pessoa não pode variar, não pode declinar, não pode oscilar, porque sua estrutura está colada a uma imagem idealizada.
Em entrevistas, a diretora Coralie Fargeat descreve o conflito central do filme como uma luta interna, resultado da internalização de regras e violências externas que moldam o corpo e a mente das mulheres. Essa formulação é extremamente pertinente do ponto de vista clínico. A violência social não atua apenas de fora para dentro; ela é internalizada. A exigência externa — “seja jovem”, “seja desejável”, “seja perfeita” — transforma-se em crítica interna.
“você não pode ter defeitos.”
A pressão para não apresentar falhas transforma identidade em vigilância permanente.
É nesse ponto que identidade e autoimagem entram em conflito estrutural. O que se observa é a atuação de um superego cultural rigidificado. Quando essa instância crítica se torna excessivamente severa, surgem autocrítica crônica, ódio ao próprio corpo, sensação persistente de insuficiência e fragmentação da identidade. Não se trata apenas de uma questão estética; trata-se de uma organização psíquica sob julgamento constante.
Embora essa pressão seja historicamente mais intensa sobre as mulheres, ela não se restringe a elas. Homens também vivem ansiedade de performance, pressão corporal, medo de irrelevância e exigência de produtividade permanente. A forma muda; o mecanismo psíquico é semelhante. O superego cultural não distingue gênero quando o critério é desempenho.
O filme também evidencia algo que a clínica conhece bem: o superego não é apenas individual, ele é cultural. Ele se constrói a partir de ideais coletivos de valor e determina quem merece visibilidade, quem permanece relevante e quem deve ser descartado. Quando esses ideais são internalizados sem questionamento, o sujeito passa a viver sob observação constante. Não é apenas o outro que observa; é o próprio indivíduo que se vigia. Surge uma cisão entre o eu real e o eu idealizado. Quando múltiplas versões idealizadas disputam liderança interna, o sujeito perde coesão. É o embate entre ideal do eu e eu real, entre imagem e experiência, entre performance e vulnerabilidade. Essa tensão prolongada pode gerar dissociação defensiva e fragmentação identitária sob pressão externa.
Em entrevistas, Coralie Fargeat, diretora do filme, fala sobre personagens que parecem “quase bipolares ou esquizofrênicas” e deve ser entendido como metáfora. Não se trata de psicose, mas de conflito intrapsíquico intenso. É o embate entre ideal do eu e eu real, entre imagem e experiência, entre performance e vulnerabilidade. Essa tensão prolongada pode gerar dissociação defensiva e fragmentação identitária sob pressão externa.
O psiquismo saudável é flexível. Ele oscila, adapta e retorna. Mas quando a identidade está fundida a uma versão ideal de si mesmo, a oscilação deixa de ser parte da vida e passa a ser interpretada como falha. Surge então a tentativa de controle radical: controle do corpo, da imagem, da narrativa pessoal. A fantasia contemporânea é eliminar a variação natural da experiência humana. No entanto, eliminar variação é eliminar plasticidade. E eliminar plasticidade é empobrecer o funcionamento psíquico.
Quando o sujeito não tolera quem é no presente, ele começa a organizar-se em torno de uma versão idealizada de si — mais jovem, mais forte, mais desejável, mais adequada ao olhar do outro. Do ponto de vista psicodinâmico, isso se aproxima da organização de um falso self: um funcionamento adaptado e performático que mantém coesão externa ao custo de distanciamento interno. Quanto maior a distância entre a versão idealizada e a experiência real, maior a tensão psíquica. O corpo deixa de ser vivido como expressão do eu e passa a ser objeto a ser corrigido. O indivíduo passa a se observar de fora, a se avaliar continuamente, a existir sob vigilância permanente. Essa dissociação não é superficial; é estrutural.
Há ainda um ponto particularmente relevante: quando a tentativa de permanecer ideal passa a organizar a própria identidade. A luta contra o tempo, contra o corpo ou contra a transformação oferece sentido, mas também aprisiona. A identidade deixa de ser dinâmica e torna-se defensiva. E, nesse momento, o sofrimento já não é apenas sintoma; ele passa a integrar a estrutura do eu.
Ao longo do livro Maturidade Emocional na Vida Real, a proposta nunca foi eliminar emoções difíceis nem idealizar estabilidade permanente, mas discutir integração. Maturidade emocional não significa permanecer jovem, produtivo ou inabalável. Significa integrar força e fragilidade, desempenho e descanso, imagem e subjetividade. Significa tolerar variação sem desorganização extrema.
A pergunta que o filme provoca não é apenas estética; é estrutural: quem você é quando a versão ideal de si mesmo muda? Se a identidade depende exclusivamente de permanecer ideal, qualquer transformação será vivida como ameaça. Se há integração, a transformação pode ser vivida como continuidade.
Na prática clínica, essa diferença é decisiva. Ela separa rigidez de adaptação, idealização de maturidade e flexibilidade psíquica de colapso estrutural.
Há ainda um aspecto que atravessa silenciosamente toda essa discussão: o etarismo.
O preconceito baseado na idade não opera apenas no mercado de trabalho ou na indústria do entretenimento. Ele molda expectativas culturais, redefine critérios de valor e estabelece uma hierarquia simbólica em que juventude equivale a potência e envelhecimento equivale a descarte.
Do ponto de vista psicológico, o etarismo não atua apenas como pressão externa. Ele se infiltra na organização psíquica. Quando internalizado, passa a funcionar como parâmetro invisível de autoavaliação. O sujeito não precisa mais ser excluído explicitamente; ele próprio passa a se medir segundo um padrão que o desvaloriza progressivamente.
Nesse contexto, envelhecer não é apenas atravessar o tempo. É enfrentar a ameaça de invisibilidade.
O impacto psíquico do etarismo não se restringe a mulheres, embora historicamente recaia sobre elas com maior intensidade. Homens também experimentam a ansiedade de irrelevância, a pressão por produtividade contínua e o medo de perder posição social à medida que o tempo avança. A forma cultural pode variar, mas o mecanismo psíquico é semelhante: a identidade torna-se dependente de um critério que inevitavelmente se transforma.
Quando a sociedade associa valor à juventude e performance constante, o tempo deixa de ser parte da vida e passa a ser adversário. E, nesse cenário, maturidade emocional não significa negar o envelhecimento, mas integrar o processo sem que ele destrua a coesão do eu.
Talvez, no fundo, a pergunta que o filme e a clínica nos impõem seja ainda mais ampla: como construir uma identidade que sobreviva ao tempo sem precisar lutar contra ele?
Quem você se torna quando deixa de lutar para não ter defeitos?
Porque, em muitos casos, o sofrimento não nasce da mudança. Nasce da tentativa incessante de impedir que ela aconteça.
Dr. Luciano Cherubini
Médico Psiquiatra
Atendimento em Registro – SP (Vale do Ribeira)
Atendimentos online