Limites emocionais, pertencimento e o cansaço de sustentar tudo

 Dificuldade em dizer não, culpa e esgotamento emocional nas relações

Mulher segurando uma xícara olha pela janela com expressão introspectiva e reflexos de luz no rosto, simbolizando esgotamento emocional e necessidade de estabelecer limites.
Nem todo cansaço aparece no corpo. Alguns se acumulam em silêncio, entre o que se sente e o que se sustenta.


Muitas pessoas chegam ao consultório relatando dificuldade em dizer “não”, sentimentos constantes de culpa e esgotamento emocional — especialmente quando não conseguem estabelecer limites claros nas relações.

Nem sempre esse cansaço é físico.
É um desgaste mais profundo, persistente, difícil de explicar.

Não é o cansaço que melhora apenas com descanso ou férias. É um desgaste que se acumula ao longo do tempo e que costuma estar relacionado à forma como a pessoa se envolve emocionalmente com o mundo ao seu redor.

Ao investigar com calma, surge um padrão recorrente: a dificuldade em reconhecer e sustentar os próprios limites emocionais em meio às múltiplas demandas da vida adulta. Relações familiares, afetivas e profissionais se sobrepõem, muitas vezes sem que o indivíduo tenha aprendido, de fato, a se escutar antes de responder às expectativas externas.

O ser humano não nasce sabendo gerenciar vínculos. Aprende, em grande parte, pela tentativa de pertencimento.

Desde cedo, muitos associam aceitação a desempenho emocional: ser agradável, disponível, compreensivo, forte. Aprende-se que dizer “sim” preserva relações, enquanto dizer “não” pode gerar rejeição ou desapontamento. Esse aprendizado inicial, quando não revisitado na vida adulta, cobra um preço alto para a saúde mental.


Quando o limite ameaça o pertencimento

Dizer “não” costuma ativar culpa.

Para algumas pessoas, o limite é vivido como agressão. Para outras, como egoísmo. Em muitos casos, existe um medo persistente de deixar de ser amado, valorizado ou necessário.

Essa dificuldade em estabelecer limites está frequentemente associada à baixa autoestima e à baixa autoconfiança. Quando a pessoa não confia no próprio valor, passa a sustentá-lo quase exclusivamente por meio da aprovação alheia. O afeto do outro se torna a principal referência de segurança emocional.

Nesse contexto, agradar deixa de ser escolha e passa a ser estratégia de sobrevivência psíquica.

O problema é que, ao dizer “sim” repetidamente para aquilo que não se deseja, algo interno começa a se romper. A pessoa preserva o vínculo externo, mas se afasta de si mesma.

Com o tempo, surgem sinais claros de esgotamento emocional:

– irritabilidade frequente
– sensação constante de injustiça
– tristeza difusa
– perda de prazer
– sintomas ansiosos
– sintomas depressivos

Muitos relatam que seguem “funcionando”, mas já não se sentem presentes na própria vida.


Carregar o outro quando mal se sustenta a si

Outro aspecto comum na prática clínica é a tendência de assumir responsabilidade excessiva pelos sentimentos alheios. Mesmo fragilizada, a pessoa sente que precisa acolher, resolver, sustentar.

Há dificuldade em reconhecer que cuidar do outro exige, antes, algum grau de estabilidade interna.

Carregar dores que não são próprias, quando já se está emocionalmente sobrecarregado, não é empatia — é sobrecarga.

E essa sobrecarga costuma ser silenciosa, pois quem cuida demais raramente se autoriza a pedir cuidado.

Esse funcionamento mantém o indivíduo em estado de alerta constante. Vive-se em hipervigilância emocional:

– atenção exagerada às reações do outro
– medo de errar
– necessidade de antecipar expectativas
– evitação constante de conflitos

Quando mantido por longos períodos, esse estado contribui para quadros de estresse crônico, que se desenvolvem de forma gradual e cumulativa.

Com o tempo, surgem também sintomas físicos:

– tensão muscular
– alterações do sono
– fadiga persistente
– dificuldade de relaxar
Mulher de braços cruzados com traços circulares sobre a cabeça e pessoas desfocadas ao fundo, representando sobrecarga emocional, ansiedade e conflito interno nas relações.
Carregar dores que não são próprias, quando já se está emocionalmente sobrecarregado, não é empatia — é sobrecarga.



Limite não é rejeição

Estabelecer limites não significa afastar ou ferir o outro.
Limites organizam as relações. Delimitam onde o outro termina e onde o eu começa.

Relações sem limites claros tendem a gerar confusão, ressentimento e desgaste emocional. Quando não há espaço para o “não”, o “sim” perde autenticidade e passa a ser vivido como obrigação.

Aprender a dizer “não” é, muitas vezes, um processo terapêutico. Envolve:

– revisar crenças antigas
– trabalhar o medo da rejeição
– fortalecer autoestima
– desenvolver autoconfiança

Relações sustentadas apenas pelo sacrifício unilateral não são saudáveis. Quando o afeto depende da anulação de si, ele se aproxima de um padrão de dependência emocional.


Cuidar de si também é responsabilidade

Reconhecer os próprios limites não é fraqueza.
É maturidade emocional.

Nem sempre será possível atender a todas as expectativas. Nem sempre será possível estar disponível. E isso não diminui o valor de ninguém.

Quanto mais alguém se respeita internamente, mais autênticas e sustentáveis tendem a ser suas relações.

Cuidar da saúde mental passa por:

– escutar o próprio cansaço
– respeitar os próprios limites
– aceitar que não é possível carregar tudo o tempo todo

Quando sentimentos de culpa excessiva, baixa autoestima e insegurança emocional estão profundamente enraizados, buscar ajuda profissional pode ser fundamental.

O acompanhamento psiquiátrico permite compreender esses padrões, aliviar o sofrimento emocional e construir formas mais saudáveis de se relacionar consigo e com os outros.

Porque relações saudáveis começam exatamente no ponto em que a pessoa deixa de se ferir para continuar pertencendo.


Se você percebe que tem dificuldade em dizer “não”, que se sente culpado ao estabelecer limites ou que costuma carregar mais do que consegue sustentar emocionalmente, talvez seja o momento de buscar ajuda.

Com acompanhamento adequado, é possível fortalecer o senso de valor pessoal e aprender a construir relações mais equilibradas — com os outros e consigo mesmo.

Aprender a respeitar seus próprios limites não é egoísmo.
É amadurecimento emocional.


Dr. Luciano Cherubini
Médico Psiquiatra
CRM 96061 • RQE 118809
Registro – SP – Vale do Ribeira

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